segunda-feira, 17 de outubro de 2011

A flor- Miniconto











A flor


O sol a pino aquecia o pátio onde eles se protegiam na estreita sombra. Amontoavam-se recostados na parede encardida. Alguns jogados no chão, alheios. Talvez não sentissem o queimar.
Os homens, com canecas nas mãos, batiam ruidosos no portão de ferro, que se abriria em alguns minutos. Era hora do almoço.
A alegria do primeiro emprego desapareceu ao cruzar a porta para os alojamentos, que recendiam à urina.
Uma mulher lhe sorria sentada perto da entrada. Vigiava a passagem. Esperaria alguém? Boca desdentada, faces rubras, boca carmim borrada. Uma flor murcha caía de sua orelha esquerda. Retribuiu o sorriso.
No carro, de volta, chorou. Não sabe se por eles ou por ela.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Miniconto: A mulher de preto



Ainda atordoado com as palmas saí para o saguão. Pedi um táxi, não gosto de dirigir à noite. Ao afundar no banco de trás, exausto e feliz, me vem a imagem da mulher de preto sentada na primeira fila. Já a vi em algum lugar, o cansaço não me ajuda a lembrar. Talvez um rosto conhecido. Das três perguntas que me fizeram, a última foi dela, perguntou algo sobre amor.
Na cama, após alguns minutos deitado, revejo seus traços, agora sim, sei quem é. Mas como? Está longe! Seria mesmo ela? Como soube da palestra? Por que não veio até mim?
No dia seguinte os e-mails retornam, uma mensagem automática diz que ela está viajando e volta só daqui a um mês.
Sinto-me estranho.

PS: Conto postado em 2006, aqui.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Belinha e o sargento

Belinha era solteira e de bela não tinha nada, não que fosse feia- era sem graça- pequenina, cabelos armados em excesso pelos cachos negros, um buço que teimava em não tirar. A mãe um dia foi uma mulher bonita, ainda guarda traços no rosto que lembram a jovem que fora- um nariz reto e arrebitado, olhos muito negros e grandes, andar elegante, coisa que Belinha não tem.
Conheceu o Sargento no Coral da Igreja, ele nordestino e galante, tem uma postura firme que o torna atraente, másculo, faz sucesso com as mulheres. Assim que o viu Belinha passou a ter sonhos eróticos que a faziam corar. Ele percebeu que a perturbava, gostava disto, gostava de vê-la por perto, frescor e sexo à flor da pele.
Chamou-a para conhecer sua casa, foi com a mãe, eram inseparáveis. A casa simples, casa de homem sozinho, precisava de cuidados, logo as duas assumiram a arrumação, todos os sábados enquanto a filha cuidava dos quartos a mãe lavava a roupa e cozinhava. Belinha acabava rápido a lida doméstica e se deitava na rede com o Sargento, aproveitando que a mãe estava ocupada nas panelas, ele tomava a mão de Belinha, colocava no seu sexo rijo- ela estava ali a espera desde que chegou-e coordenava os movimentos, apertava aquela mão pequenina no pênis grande e duro, ela gemia de desejo, contorcia-se na rede.
Um dia o telefone tocou, ele rapidamente foi para fora de casa falar, Belinha o seguiu, pé ante pé, e ouviu que falava com uma mulher com intimidade. Descobriu ali que ele tinha mulher e filhos distantes. Ofendida Belinha conta aos prantos para a mãe, nunca mais quer vê-lo, diz soluçando. A mãe argumenta:
- É homem, macho, são todos iguais, vai acabar velha e sozinha como eu, ele precisa de uma mulher que cuide dele. Belinha chora todos os dias ao lembrar do sonho perdido da noite de núpcias quando perderia sua virgindade, mas não cede, tinha brio, estava ofendida. Sábado acordou mais tarde, na mesa um bilhete da mãe:
“Fui lavar as roupas do Sargento, tem comida no fogão”.

domingo, 11 de setembro de 2011

Miniconto 01- arquivo- A viagem


 




Ele chegou com uma surpresa- uma passagem para Nova York. Como estava sobrecarregado de trabalho, ela iria com a amiga.
Telefonou para dizer que chegou bem, não o encontrou, mais duas tentativas. Nada.
Desistiu. A amiga solícita passou a fornecer os comprimidos para dormir- não poderia estragar a viagem.
De volta, fingiu estar tudo bem. Ele em casa, o vinho francês de sempre, o silêncio conhecido.
Maria, a empregada de anos lhe diz: ”Dona Silvia, desculpe lhe dizer, mas o doutor não esteve aqui nem um dos dias em que a Senhora esteve fora”.
Um dia a loja de importados entrega os vinhos e um champanhe. Fica feliz. Quem sabe ele estaria diferente hoje? Ao ler a nota lê:
“Duas garrafas de champanhe”.
Ele ousa: “Levei a outra garrafa para festejar os gols no clube”.
Noutro dia o telefone toca, uma voz feminina, a amante antiga do marido:
- “Você está com ele, mas é a mim que ele ama, sua vaca”.
Fechou a casa, abriu o gás e colocou a cabeça dentro do forno.
Ele não precisaria mais mentir, nem ela fingir.




De 05/06/05

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Desejo- Miniconto




Quando cheguei com as flores ela me recebeu com um beijo e um:
- Obrigada, querido.
Sumiu, voltou com a jarra de vidro e margaridas brancas.
Na rua, com as flores na mão, me senti nu, depois desconfortável no meio da sala, foi a primeira vez que subi.
Ela veio em minha direção alegrinha, me beijou e me apertou contra ela.
Quando a vejo assim, leve, meu lado taciturno sobressai. Silencio.
Ela disse:
- O que foi?
- Nada, não foi nada, respondi sem convencê-la.
Puxou-me para o quarto. Mandou que me despisse e deitasse. Obedeci em silêncio. Continuou vestida. Eu nu.
Ajoelhou-se aos meus pés e os massageou. Meus pés doem ao serem tocados. Ela estalou cada dedo, dizendo baixinho:
- Se solte, vamos, se solte.
Então, me alisou com aquelas mãos pequeninas, apertou alguns pontos sensíveis- sempre muito compenetrada.
Quando me viu entregue, despiu-se olhando desafiadoramente nos meus olhos. E veio felina, deslizando a partir dos meus pés esfregando seu corpo leve no meu até alcançar o que desejava.
Ai, sorriu e me beijou vorazmente. 
Montou até a exaustão.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Miniconto: Tolinha- Revisto



- Vindo para cá, agora, eu vi quando ele atravessou a rua. Do meio fio acompanhei seus passos rápidos. Uma garoa fina e fria caia umedecendo meus cabelos. Vi quando parou e voltou, deve ter esquecido algo. Muitas vezes ele volta para pegar algo. É distraído. Vive escrevendo, mesmo sem papel. Ele refez o caminho. Imaginei que poderia me ver do outro lado da rua, fui para perto das lojas. Não queria que me visse despenteada. Sabe que em algumas vezes penso em como sou fútil. Como pode alguém ser fútil e densa? Eu sou. Idiossincrasia. É isto? "Não me importa seu cabelo, amo você", ele diria. Mas não quero ser vista com o cabelo feio. "Mulheres são tão tolas...", ele diz. A tolinha quer sempre estar bonita para ele. Quando ele vier, à noite, eu estarei pronta. Bela e pronta para amar. Doutor, eu não contarei a ele que o vi. É feio isto, não é? Eu acho. Queria ser diferente, mas não consigo...

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Mini conto: Zampanô- Arquivo



Zampanô



Abre a porta. Está escuro.
- Zampanô, Zampanô...
Acende a luz, o cão sai correndo, desliza pelo assoalho.
- Zampa, que dia hoje. Ufa!... Precisava ver. O ônibus cheio, abafado, o trânsito engarrafado. Gente com cada cheiro...
Ele pula- desta vez em suas pernas.
- Calma, calma, senão vai desfiar minha meia.
Tira primeiro os sapatos, depois a meia calça preta- só usa esta cor- e a saia, por fim, a blusa de frio. Continua com uma camiseta de algodão e a calcinha.
Vamos lá, vou te dar comida.
Liga a TV, passa uma novela. Diverte-se fazendo críticas azedas:
- Zampa, esta mulher é insuportável, se você visse concordaria comigo.
Requenta a comida. Deita-se no sofá. A louça fica para amanhã, o banho fica para amanhã, a roupa jogada no tapete juntará amanhã.
- Zampa, hoje não vamos passear, não consigo, meu amigo...
O cão abana o rabo, enquanto uma mão magra alisa seu corpo.

Publicada antes em 10/09/10

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Miniconto: Madrugada

Foto daqui



Madrugada


O cão ladra à noite. Assustada olha o jardim. Nada. Olha o quintal. Nada. O cão late insistente.
Tranca a porta do quarto. Dorme encolhida.

Pela luz solar sabia que passava das nove. Procurou não demorar para descer. Abriu a porta da frente com cuidado. Nada mudara. Caminhou à direita no estreito corredor. Ali jazia um homem- a camisa xadrez aberta no peito, a calça rota mostrava um ventre inchado. Não sabe por que não teve medo. Passou ao lado do corpo com cuidado para não esbarrar no braço frouxo. Percebeu que respirava. Sentiu alívio.

Antes de ligar para a emergência, vestiu uma roupa de sair, passou batom e tomou o café da manhã na sala.

domingo, 21 de agosto de 2011

Quase menina


Mais de cinqüenta anos, feio, desajeitado, como ousaria se aproximar de uma mulher?...
No elevador, a filha do porteiro pergunta:
- Doutor, o Sr. está precisando de faxineira?
Quase menina, ainda, pele negra e tenra, dá para adivinhar o sexo rosa e doce.
- Pode vir amanhã às sete. Ela veio de shortinho curto, coxas gordas a mostra, cheiro de sabonete Phebo. Desta vez ele ousou, ela pedia.
Desde aquela manhã, o doutor, se ajoelha todas as terças e quintas no chão da cozinha. Abre as pernas da menina e se delicia com o gosto do seu sexo.
Melzinho.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Miniconto: As pedrinhas transparentes

Aos domingos, na praia, catava pedrinhas. Preferia as transparentes.

Naquele dia, um homem se aproximou e lhe deu uma pedra escura. Gostou do rosto.

Seguiram pela areia lambida. Despediram- se com um “até domingo”. Ela sentiu- se diferente. Há muito não falava com homens.

Esperou ansiosa o fim de semana. Da calçada, viu o homem à beira- mar. Foi em sua direção, vacilante. Seguiram caminhando e pegando as pedras. Falavam pouco, ela desacostumada, ele só dizia o essencial.

No terceiro domingo, ele entrou em sua casa. Ela sabia o que viria.

Amaram-se no chão da sala.
Enquanto ele se vestia, pegou um copo de conhaque, colocou as mais belas pedrinhas dentro. Entregou- lhe. Ele não agradeceu, apenas a fitou com olhos surpresos.

Ao se despedirem, ele disse: “Até mais”. Sentiu-se estranha. Intuiu algo. Mas, e se ele voltasse à noite?

Nada sabia dele, nem o nome.

No domingo seguinte, esperou-o até a maresia envolvê-la e sentir frio.

Não se importa mais com as pedras, às vezes curva-se, pega uma, a observa na mão, então a devolve para o mar.

Talvez no próximo verão...

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

O casal

O casal

Os feirantes desmontavam as barracas, conversando alto. Ela vinha andando pelo meio das frutas, ouvindo as piadas, algumas para ela. Fingia não ouvir. Já havia comprado o que precisava, queria sair logo dali. O sol encoberto por uma nuvem densa. Do chão, úmido e quente, vinha cheiro de frutas maduras. Hora do almoço. Sentia fome. Escolheu um vaso de azaléias na banca de flores da esquina. Olhou para o meio da praça e o viu. Cumprimentava uma mulher: deu um beijo, tocou seu braço, depois enlaçou-a e seguiram em direção oposta. Seu coração saltou. "Parecem íntimos, vão almoçar juntos, com certeza". Parou com o vaso na mão. Ela, magrinha, pernas finas, vestia saia e blusa, elegante e discreta. Verde, a blusa – ela não usaria verde nunca. Ele, como sempre, de azul. Depois que os perdeu de vista, voltou a caminhar olhando para o chão. Desejou chorar. Entrou na Vila e veio o frescor da sombra, o cheiro de comida vindo dos vizinhos, os ruídos. Viu seu gato à porta. Entrou, largou as compras na pia, colocou água nas azaléias, lavou um pêssego e pensou que não há coisa melhor do que estar em casa e comer uma fruta fresca. Ele diria, se pudesse, que esta é a realidade.
A ela, resta sonhar.

domingo, 7 de agosto de 2011

O que você tem?

O que você tem? II


Desde que voltei notei algo diferente nela. Está mais silenciosa.
- O que você tem? Está tão quietinha...
- Nada, meu querido, gosto do silêncio.
Não enfeitou a casa com flores na minha chegada, nem fez meu prato preferido. Ela, sim, está mais bonita, há algo diferente, um distanciamento que a embeleza. Eu a flagro sorrindo, olhar distante, cantando levianamente pela casa. Não me conta mais os seus sonhos noturnos. Sorri quando pergunto: "Não sonhei nada, querido". Não encontro a resposta, me comportei como sempre, ela está acostumada às minhas viagens... Conhece as regras do jogo.
Há algo que não alcanço, é mais um mistério que me fascina.

Às três da manhã


Às três da manhã II


Às três da manhã, ele veio até nosso quarto, acendeu a luz e disse:
- Olhe para mim, é a última vez que me vê.
Sonada, mal ouvi. Mais tarde decifro ao ouvir um barulho ensurdecedor.
Levanto atordoada. Ele está caído no chão da varanda, a cabeça arrebentada, sangue por toda parte, cheiro de sangue. Pego no revólver, tento entender como foi. Corro desesperada pela casa. Grito por socorro: ninguém ouve, não há ninguém perto.
Os cães fuçam o corpo, lambem o sangue.
Sento no chão e choro desesperada.
Não preciso ter vergonha. Ele não está mais ali.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Chega de saudade ou Insensatez- um conto para Tom Jobim









Insensatez*


"Venha, estou te esperando. Desça a Montenegro, entre na terceira rua à direita. É um prédio antigo e pequeno no meio da quadra", disse ele.

Eu fui, como sempre. Obedeço aos homens.

Tinha pressa. As mãos suavam ao descer do ônibus no ponto indicado.

Lembro de um sonho em que deslizo pela Rua Prudente de Moraes deserta, desejando alar ao seu encontro.

Na esquina, um bar, mais à frente duas vilas. Adoraria morar no bucolismo de um espaço silencioso, com flores nos jardins. Com este olhar, me deparei com a vila ao lado do prédio dele.

Anoitecia.

Bati à porta, alguém tocava violão, abafando meus toques. Repeti as batidas com mais força. O som do violão cessou. Ruídos de cadeiras e vozes. Ele abre a porta no momento em que eu inspirei fundo, aflita, pensava o que fazer se não me ouvissem.

Havia homens espalhados pela sala, alguns no chão em almofadas, eu era a única mulher. Um deles me olhou com certo desdém, por pouco não me sinto intrusa, apenas porque os olhos dele me observavam e sorriam.

Minutos depois ficamos a sós entre copos e cigarros espalhados sobre o piano, chão, janela. A pequena sala, que dava para a frente do prédio, rescendia a cigarros. Comecei a juntar copos e cinzeiros. "Deixe, depois eu limpo", ele disse. "Limpamos agora, é melhor", respondi.
Eu precisava arranjar coisas para fazer. Não queria que ele percebesse minhas mãos frias e úmidas. Queria mais tempo para me acostumar à idéia de estar ali.

Na pia cheia de copos, garrafas vazias, um gato cinza de olhos azuis muito claros tentava subir.

Ele veio por trás e beijou minha nuca. Me desvencilhei caminhando em direção à janela. "Veja o Cristo, dá para vê-lo..."

Eu senti seu hálito de álcool e cigarro- um cheiro que me excitava.

Segurou meu rosto entre as mãos em taça, beijou meus lábios me sorvendo. De olhos fechados eu adivinhava o rosto que amei no primeiro encontro. Abri os olhos para conferir. Aos poucos fomos nos afastando da janela. Debruçando-se sobre mim, deitou-me no sofá, abrindo, com dedos ágeis, caminho para a minha entrega plena.

Um dia ele viajou, precisava ir a trabalho, disse. Não voltou. Eu chorava desolada. Enviei uma carta, por um amigo comum, onde dizia:
“Desde sua partida minha vida é só tristeza e melancolia. Não sei viver assim. Volte”.

Meses depois recebo um telefonema. Era Vinícius, dizia que tinha algo para mim. Fui até lá e ele me cantou, jamais esquecerei, esta música, como um recado do Tom:

“Chega de saudade

... Não quero mais esse negócio de você longe de mim,

Vamos deixar esse negócio
De você viver sem mim"...

Ele voltou, anos depois. Soube pelos jornais



* Este conto eu fiz para um concurso intitulado Bossa Nova do Estadão. Era preciso ter a frase de 'Chega de saudade'. Selecionaram vários, não lembro quantos. Não peguei nem resfriado, aliás... nunca pego resfriado hihihi
Acho que ficou muito carioca. Eu gosto, me sinto nos braços de Tom, nunca é demais sonhar.
E, pra quem não sabe, eu quase fui sua vizinha, morei no 97, Nascimento Silva, ele no 107, mas em 1970, quando fui para lá ele já vivia fora- nos States, acho. Eu amava o Tom. Ainda amo, pra mim não morreu, apenas partiu.

Um anoitecer



Foto daqui

Um anoitecer


Acorda, ouve os ruídos. Pensa no dia que começa. Não, que termina, lembrou.
Tomou um banho frio, deitou, sentia sono- despertou horas depois. A casa em silêncio. Olhou a fresta no chão da porta- escuro. Haveria alguém ali? Semidesperta tenta identificar sons mais distantes.
O cão late rompendo a lassidão do entardecer. Permanece na cama. Com a mão, ainda dormente, toca os seios, o plexo- reza. Com voz débil suplica forças divinas. Nela, não as encontra.

domingo, 31 de julho de 2011

Microcontos- os primeiros 2005

Microcontos, cada linha um conto



O sangue espirrou, vi, desta vez, os seus olhos suplicarem.


Deu um grito gutural, da boca saía uma espuma branca. Era tarde.


Quando a onda me engoliu, pedi perdão. E não socorro.


Vi o pânico nos olhos, tomei seu corpo com mais desejo. Fundo.


Escondi a faca de cortar carne. Esta seria sua última trepada.


Despertei suja de sêmen, corri a mão no lençol frio. Calafrio.


Cerrei os olhos, úmida e quente. Deixei que fosse até minh'alma.


Rubro e úmido meu sexo aguarda o teu, buscando outros sexos.


Dói áspero teu sexo, me rasga. Finjo prazer para te esfaquear pelas costas.


Quis fazer das pernas tesouras- cortar- tua força venceu.


Arranhado diz rindo: "Foi você". Amanhã não rirá lanhado por mim.


Te encontro pronto, teus pés em oferenda. Lírios brancos. (baseado no livro de Raduan Nassar. "Um copo de cólera”.


Escuto passos, não me volto. Tuas mãos, taças, aquecem meus seios.


"Eu te amo", dizes. Teus olhos negam. Minha mão constrita te afasta.


PS: Estes micros eu fiz em 2005, para o projeto de Nemonox Casa das mil portasCada micro deveria ter até 50 caracteres.

Miniconto: Na vitrine- revisto, pero...


Na vitrine


Com o coração descompassado atravessou a rua correndo. Um motorista freou, buzinou irritado. Era ele do outro lado da rua, sabia. Vestia uma camisa xadrez por dentro da calça e cinto de couro. “Está diferente, mas é ele”. Temia que desaparecesse. Diante de uma vitrine, tocou levemente o seu braço. Ele virou-se, disse desconcertado:

- "Minha mulher está ai dentro, não posso falar com você". Virou-se e dirigiu-se à porta de entrada.

Olhar turvo perdido nas manequins, não via nada. Saiu, passos lentos, esbarrando nas pessoas.

Na esquina, no meio fio, alguém perguntou se precisava de ajuda.

- “Não obrigada”. Não queria nada.

Tempo interminável até a penumbra da sala.

Adivinha uma jovem ao seu lado que o obriga a se cuidar. Ela não saberia dizer: "Não beba mais por hoje". Bebiam juntos, se amavam embriagados, jurando amor eterno.

Deixou-se estar no sofá até que o cão viesse, esfomeado, pedir comida. Ela não precisaria comer estes dias, sabia.



domingo, 24 de julho de 2011

Na palma da mão

Na palma da mão


Amanheceu tristonha. Tomava o café da manhã pensativa quando ouviu um grunhido. Camundongo? Pássaro? Um filhote de rolinha se debatia no chão da cozinha. A gata deve ter trazido, pensou.
Observou o pássaro na palma da mão- tão frágil. Levou-o até o muro onde voou para o jardim vizinho- lá estaria a salvo.
Minutos depois o filhote jazia no chão da cozinha. Pegou-o sem vida. Precisaria enterrá-lo, mas ainda estava tépido. Virou-o na mão, na tentativa de que revivesse. Nada.
Sob a bananeira, enterrou-o depois de segundos de estranheza, ele ainda estava quentinho.

PS: Fiz antes uma crônica, está aqui.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Seis da tarde- miniconto

Seis da tarde


O ônibus estava lotado. Um menino cedeu o lugar para ela, a mãe disse: “Ande, levante, não vê que a mulher precisa sentar?”. O marido permaneceu em pé, recostado na janela. Tentou abrir a parte de cima, não conseguiu. Olhou para ela e fez um gesto de cumplicidade- não havia nada a fazer.
Ela ajeitou as sacolas no meio das pernas. Sentia o cheio forte da mulher ao lado, misto de suor com gordura- deve ser cozinheira, pensou.
O ônibus parava a cada quadra no início da viagem. O motorista gritava: “Mais para trás ai, faz favor!” . Amontoavam-se.  Ela se encolhia. Um homem com uma pasta encostou o corpo no ombro dela. Ela olhou para o marido, ele fez um gesto com a cabeça e ela se ofereceu para segurar a maleta. Pesava. “Deve ser representante de remédios, está arrumadinho”.
Uma hora mais tarde o ônibus esvaziava a cada ponto. O marido sentou-se ao seu lado. Ela, imediatamente, deitou a cabeça no ombro dele, sentiu seu cheiro e dormiu.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Os pássaros em 'V'- miniconto









Os pássaros em V



Faziam, há dias, o trajeto em silêncio. Ela sabia que dissera algo que o tocou profundamente e feriu. Caminha e tenta lembrar o que disse. Viveu num turbilhão. Sentia-se 'enlouquecida', louca de amor por ele. Como ele recusava este amor pleno? Ela se perguntava, e tentava, sem saber bem como, que ele lhe dissesse que também a amava. Ele calara. Nada o tira do silêncio, é preciso saber esperar.

Andavam pelas ruas de sempre. Ela o espera, desde que se conheceram, numa esquina. Ele vem de algumas quadras adiante.

O primeiro encontro foi ao acaso, ela tropeçou, derrubou livros e papéis, ele estava próximo, veio ajudá-la. Caminharam então na mesma direção.

- São cartas?

- Sim, estou compilando algumas de escritores famosos para um livro.

- Interessante...

O resto do trajeto foi em silêncio, quebrado por ela quando se aproximava de sua casa:

- Moro neste prédio. Você mora aqui perto?

- Sim.

Despediram-se com um aperto de mão.

Ela não dormiu naquela noite, acreditou que algo novo a tiraria do vazio.

À noite jogou o 'Tarot' que guardava há anos numa gaveta: "O enforcado", "O ermitão", "A estrela". Tirou mais uma vez: "A força".

Sabia que iria sofrer por este amor.

No dia seguinte saiu na mesma hora. À tardinha viu quando ele se aproximou buscando por ela na esquina. Cumprimentaram-se sem aperto de mão, nada. Caminharam em silêncio. Quando chegavam perto do seu prédio, ele disse:

- O que você faz aos sábados?

Nada que fizesse teria importância agora, estaria livre para ele, ela pensou.

Encontravam-se aos sábados na casa dela. Ele tinha mulher e dois filhos. Depois de três anos, ela mal sabe da vida dele, ele não conta, nem ela quer saber. Espera que um dia ele fique para dormir.

Agora caminha com ele ao lado. Conhece e ama aquele corpo mais do que o dela, adivinha cada traço. Deseja tocá-lo. Caminha roçando nele, que não se afasta, mas também não a toca, como costuma.

Há dois sábados ele não vem. Inventa desculpas, ela sabe. É difícil esperar. Esperar que ele volte a desejá-la.

Ele, de repente, olhou para o céu e disse:

- Olhe, veja os pássaros! Que lindos! Formam um V!

- São lindos. Há anos não via pássaros juntos assim...

Olharam-se e riram.

Ela sabia que neste sábado ele viria. Sabe que ao sentir o corpo dele, solto e pesado, sobre ela, uma lágrima brotará nos seus olhos. Ele não perceberá e é melhor assim. Estará sorrindo nos próximos dias.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

A ponta/ sem revisão






O guarda- chuva


Do banheiro escutou a campainha tocar três vezes e as batidas insistentes na porta. Era ele, sabia. Passava das três horas quando desligou a TV.
O terno branco ainda reluzia. O rosto dele, também branco, a assustou. Não precisou perguntar, ele disse:
- Acabo de matar um homem que me seguia, um assaltante.
- Como?
- Com o guarda- chuva.
- Mas...
- Com a ponta do guarda- chuva.
Abraçou-a fortemente. Tremia.
Ela silenciou. Esperou que parasse de tremer e disse:
- Tome um banho morno, está suando frio.
O terno jogado na cadeira não tinha mancha de sangue. Nada.
Do banho ele foi direto para a cama.
Esta noite não a desejou como todas as noites.
Ela sentiu alivio.
Nunca mais falaram sobre aquela noite.

domingo, 3 de julho de 2011

Miniconto: Domingo no café da manhã


Domingo no café da manhã



- Olhe o que diz aqui sobre você.

- Sobre mim? Onde?

- Aqui no horóscopo da Linda.

- Ah!...Que Linda?

- Linda Goodman, aquela astróloga famosa, comprei ontem, você estava distraído entre seus livros.

Ele olhando por cima dos óculos:

- E você acha que eu sei quem é esta fulana?

- Ela é ótima, acerta tudo.

Ele já voltou ao jornal.

- Todo geminiano é um enigma. Escute.

- Hum? Enigma?

- É, você é um enigma.

Ele dá uma gargalhada.

- Eu sou o que sou, você não precisa me decifrar...

- E você acha que eu consigo conviver com um enigma? Dormir com um?

- Por mais que tente me decifrar, nunca me alcançará. Já devia saber disto.

Ele está lendo, a cara afundada no jornal. A mandíbula contraída.

- Imprevisível. Sabe esconder o que realmente sente. Viu?

- O que?

- Não diz o que sente.

- E você precisa que eu diga?

- Não tente se aprofundar muito nele.

Ele sem levantar os olhos do jornal:

- Fico admirado de você acreditar nestas baboseiras...afinal é uma mulher inteligente.

- Ah! Sabe o que mais? Diz que você pode sair para comprar jornal hoje e voltar daqui a três dias. Que eu nunca sei onde você está, porque está em vários lugares ao mesmo tempo. Viu?

- Viu o quê, madame? Por acaso já sai para comprar algo e não voltei?

- Voltou sim, mas quantas vezes viaja e não me dá notícias.

- Você sabe onde estou. E sabe muito bem, que eu detesto me sentir controlado.

- OK. Mas não tenho culpa, sou virginiana, controladora, mon cher.

- Escute isto: os nascidos em gêmeos precisam de dois amores e não exatamente de duas mulheres. Não é um enigma?

Ele levanta os olhos do jornal, mas não diz nada. Volta para a leitura.

- Não vou mais te perturbar, escute só mais esta: Ele terá sempre compulsão em agir de modo exatamente oposto aos seus verdadeiros desejos.

Ele se levanta, olha enviesado e vai em direção à porta.

- Vai sair?

- Vou, quem sabe volto daqui a três dias. Tchau.

sábado, 2 de julho de 2011

Miniconto: Em Paris II/ sem revisão

Em Paris II


No ônibus chorava olhando a janela- disfarçava. Por que se entristecera? Queria chegar e contar para ele o que viveu naqueles dias.
À sua frente um homem a fitou e esboçou um leve sorriso. Chorou mais ainda.
Não haveria ninguém à sua espera quando chegasse.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Miniconto: O miolo- sem revisão

O miolo de pão


Observava as mãos dela. Soltava com cuidado a xícara no pires e enrolava o miolo do pão. Todos os dias o mesmo movimento. Lembro do início, eu me continha para não pedir para que parasse. Em alguns dias, mais irritado, dizia: “Por favor, pare de fazer estas bolinhas! Lembra minha mãe.”. Ela me olhava enviesado e parava. No dia seguinte, recomeçava. Às vezes, compro pão de forma, digo que não encontrei pão fresco no caminho. Minto. Sei que não terei que assisti-la transformando migalhas em bolinhas.
Hoje não ouvi os passos no corredor. Eu acordava sempre antes, fazia o café. Na cozinha eu aguardava os ruídos dela: a água da torneira da pia, os passos lentos se aproximando.
Há silêncio hoje. Ouço minha mordida no pão, o gole do café. Ela não virá mais. Começo a enrolar o miolo do pão e choro.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Antes das seis da tarde II

Antes das seis da tarde II


Brincava com a irmã de pique-pega, ela dois anos mais velha deixava que ele a agarrasse e a jogasse no chão.
Um dia, ao tocá-la sentiu que o pau ficou duro, assustou-se, empurrou-a para longe.
Dias depois, voltaram a brincar. Ele a jogava no tapete, esfregava-se e gozava rápido. A irmã fingia não ver o ofegar e o rubor das faces.
Demorou para casar, a mulher logo pediu o divórcio- não suportava o corpo insatisfeito. Veio outra mulher e a traição.
Um dia, chegou mais cedo do escritório, tirou o terno, a gravata, deitou nu na cama, lembrou da infância, dos jogos com a irmã.
Antes que a mulher chegasse- lá pelas seis da tarde- vestiu-se, ligou a TV e deitou no sofá fingindo ler o jornal.

domingo, 26 de junho de 2011

Suíte I

Suíte número um


Ficou encantada ao se ver no espelho com o vestido da patroa.
Dançou pela suite.
Com a tesoura fez pequenos cortes nas roupas penduradas.
Ao bater a porta, sabia que não haveria retorno.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

A jardineira de gerânios/revisto por mim


A jardineira de gerânios


Eram amantes. Todo fim de tarde ele vinha, trazia um chocolate, uma flor, algo de que ela gostasse. Amavam-se até a hora marcada, já estavam acostumados às despedidas, tudo fluía com serenidade.
A mulher, cansada com seu descaso, pediu o divórcio. Ele refutou. Ela não cedeu.
Assustado, sentiu-se inseguro: aquela foi a mulher com quem casou há trinta anos, foi a primeira paixão.
A amante o esperava, estranhava as desculpas. Quando vinha, ficava calado, sentado como visita. Passou a ter um olhar inquisitivo que ela desconhecia.
Ele pensava no quanto ela envelhecera nestes dezessete anos, estranhava suas palavras simples, seus gestos espontâneos.
Ela, adivinhando o abandono, começou a se fechar. Arranjou uma licença médica.
Um dia, tirou a jardineira da varanda e trancou as janelas: as flores estavam murchas.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Quarto de Hotel I, II, III



Quarto de Hotel I


Sentados de frente um para o outro, ela sorria. Ele não sabia o que fazer.
Colocou um dos pés no meio das pernas dele. "Assanhadinha, você” e veio com sede ao pote.
Não beijou sua boca, aflito, torceu e manou nos seios, chupou com força seu sexo, penetrou desajeitado.
Como previa, não haverá outra vez. Ele ainda não sabe.


Quarto de hotel II


"Vire- se"- ele disse.
Fingiu não ouvir, ele repetiu:
"Vire-se. Quero que se vire".
De quatro, doía o toque profundo. Pediu para parar. Não parou. Cavalgou até gozar.
Ela soube, ali, que não haveria um segundo encontro.


Quarto de hotel III


Na água quente, tentando relaxar, ele falava sem pausa.
Tocava sua perna como quem toca a borda da banheira.
Ela olhava distanciada, sonhando com nuvens azuis.


quarta-feira, 22 de junho de 2011

O guarda- roupa

O guarda- roupa


Escondeu-se entre os vestidos da mãe, mal respirava, sentindo o cheiro abafado de perfume e mofo.
Ouviu ruídos. O coração sobressaltado aguardando ser descoberto.
Saiu com as pernas dormentes. Nunca souberam.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Dia de chumbo II- revisto

Dia de chumbo


Cansada de escrever, fui até a janela olhar a rua. Uma chuva fina caía. Há dias o céu está como chumbo.
Queria um dia de sol tépido-não suportaria o sol escaldante do verão. Ouviria pássaros. Invejo as aves, parecem volúveis.
A rua, quase deserta, me dá sensação estranha, lembra ficção científica. Onde estarão todos? É domingo.
Eu o vejo surgir no meu espaço visual, está com um suéter amarelo, comprado numa das viagens.
Espero que olhe para cima com o coração disparado. Ele não olha, entra na livraria em frente ao meu prédio. Penso descer, forçar um encontro. Mas, se não der tempo? Teria que me vestir, estou com roupa de dormir. Não sei vestir um casaco e sair. Talvez desse tempo, mas eu o perderia de vista. Decido esperar, olhos fixos na porta da loja.
Ele sai, traz agora um pacote nas mãos, tem um meio sorriso nos lábios, com certeza foi algo que disse para a moça do balcão que o fez sorrir. Tenho inveja da moça do balcão. Uma tristeza maior me abate. Será que não lembrará de mim?
Abro a janela, quero ficar mais visível. Segundos depois, ele me vê. Ele não sorri. Dá apenas um adeus.
Volto e me jogo no sofá chorando. O telefone toca. É ele. Mal consigo falar.
Ele diz: “Venha ver os livros que comprei, um deles é para você”.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Mini conto- arquivo: O relicário









 

O relicário



Ela deitou na tábua curtida onde o sol se esgueirava naquela manhã, ia deslizando no assoalho ainda frio.
Resta uma nesga de sol, quase uma linha que desenha um eixo,
corta ao meio seu corpo magro. Imagina que ele está sobre ela, inteiro.Tira a camisola. Fica nua.
Lembra da primeira vez que se deitaram.
Ela acabara de virar mulher, ele quase menino. Caminhavam na trilha até o açude. Tropeçou. Ele veio ajudá-la. E ali mesmo fizeram amor. Meses depois não era possível esconder mais a barriga. Casaram.
Antonio trouxe o relicário. A mãe, devota, escolheu o nome durante o difícil
parto.
Quando a jogava na cama, viril, cheio de desejo, antes cobria o Santo:
“Não quero que ele veja nossa sem- vergonhice".
Cansado da fome, vai em busca de trabalho:"Homem que é homem, traz o
sustento pra dentro de casa, Maria".
Parece que foi ontem que se despediu do marido encostada na porta, a barriga
grande, o olhar perdido no horizonte.
- "Pede pra nosso filho vingar, Maria", é cantilena no ouvido dela. O filho
não vingou, mas Antonio não sabe.
Certo dia um homem bate na porta:
- Você é Maria?
- Sou.
- Mulher de Antonio?
- É...
- Ele me falava de você. Pediu que viesse até aqui.
Ela adivinha o que ele tem para dizer. Lágrimas brotam dos seus olhos.
- Pediu para te dizer que arranjou o trabalho e que lá de cima vai cuidar de você e de seu filho.
- Como foi?
- Numa desavença, levou uma facada certeira, só teve tempo de dizer estas últimas palavras.
Ela fica em silêncio, engole o choro e diz:
- Se quiser, entre, lhe dou um copo d'água.
- Obrigado. Meu nome também é Antonio, Antonio da Silva, ao seu dispor.


Este conto está neste livro.
*Clique na imagem e leia- há uma frase lá.

domingo, 12 de junho de 2011

Preciso aprender a ser só- miniconto/semrevisão


Preciso aprender a ser só


Percebo quando ele desliza no lençol. Sai de fininho, quando está sem tempo para ficar na cama comigo. Faz muito frio, finjo dormir.
Minutos depois o cheiro de café inunda o quarto. Preguiçosamente, levanto, sei que hoje ele voltará depois das nove da noite- tempo demais. Sairei apenas à tarde para atender alguns clientes, sempre tenho mais tempo disponível. Ele diz: “O que fará hoje com seu tempo, minha querida?”.
Não sinto crítica, mais cuidado. Ele diz também, nos dias ensolarados: “Já olhou a janela? Vá dar uma volta, andar na areia.”. Nunca vou. Não gosto mais de sair só. Fui uma mulher solitária até os quarenta anos, depois que nos conhecemos, tudo que faço desejo dividir com ele.

Levanto e ele não está na cozinha. Sento na cadeira e choro.  Em alguns dias, esqueço que ele não está mais presente- apenas em mim, claro. Preciso aprender a sair só.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Manhã de domingo- miniconto

Manhã de domingo


Despertou com a mão dele em sua coxa, abria caminho entre suas pernas. Fingiu dormir. Ele continuou. Gemeu. Ele, então, colocou um dos braços sob o corpo dela e a enlaçou trazendo-a para mais perto. Abraçou-a com força.
Sentiu o cheiro de sono dele, o calor de sua nuca, sentiu conforto.
A luz que vinha da porta a incomodava, moveu o corpo para que ele mudasse de posição. Ele colocou o corpo sobre o dela, apoiava-se nos braços e a beijava no pescoço. Abriu os olhos, trouxe com as mãos o seu rosto, olhou cada traço, desenhou-o na memória. Este, que ela descobria, era pouco diferente daquele que ela sonhara.
Beijou os olhos que a olhavam ternos.
Pediu para que soltasse o corpo, deixasse o peso todo sobre ela. Queria sentir que ele era real. Queria inscrever aquele corpo no dela.

domingo, 5 de junho de 2011

O jantar

O jantar


Dormia quando ele chegou de madrugada. Da porta, disse: Anda, tenho fome. Sonada, levantou. Encheu a panela com água, colocou no fogão e voltou a cochilar enquanto fervia.
Ele a viu de bruços na mesa, pegou a lata de óleo e a despejou sobre sua cabeça.
- Sua vaca, levante!
Ela obedeceu em silêncio. Chorando baixinho entrou no chuveiro quente. Lembrou da mãe. Chorou, mais ainda. Levou tempo para tirar o óleo, o ódio e o medo.
Quando saiu, ele já havia comido. Estava à sua espera, pronto.
Acordou às quatro, ele ressonava de boca aberta. “Desgraçado”.
Antes das cinco estava pronta. Mochila segurando a porta da rua entreaberta. Faca na mão.
Ela saiu de óculos escuros- amanhecia.

sábado, 4 de junho de 2011

No bar

No bar


A mão dela deslizou pela minha perna, senti um calafrio na espinha.
Deixei que subisse até a virilha, desejava que me tocasse, me apertasse naquela mão pequena.
Meu sexo parecia estourar a calça. Então, lentamente, ela abriu o fecho e colocou meu pênis para fora apertando-o contra meu corpo.
Um calor me inundou, precisava fazer algo. Finalmente consegui sussurrar: "Por favor, vamos sair daqui”.
Ela me ignorou, fingia não ouvir ou não ouvia tal a concentração.
De repente, levantou-se, deu um tchau geral e saiu sem olhar para mim.

terça-feira, 24 de maio de 2011

O homem menos estranho- L'uomo meno strano(tradução)






O homem menos estranho


Pega o primeiro ônibus que para no ponto, o vento corta seus lábios. Há dias não vê a rua, não quer.
O ônibus está abafado, mas gosta daquele cheiro de gente, tanto tempo não vê gente. Havia lugares vazios nos últimos bancos, escolhe o que tem o homem menos estranho e senta, perna encostada na perna do homem, nem viu a cara, não importa. A perna revestida de seda dá sensação de segunda pele, desliza, sente prazer em roçar disfarçadamente no estranho. Fecha os olhos, inspira o ar misto de cheiros. Final do dia, cada cheiro uma história, de olhos fechados adivinha que o homem ao lado tem mulher e filhos à espera.
Faz isto sempre, pega um ônibus qualquer, escolhe os dias cinzentos, aqueles que intui não suportará ficar tão só. Estar colada ao homem a esquenta, ele não se afasta, mas pressiona mais a coxa, coxa apertada contra coxa. Finge não sentir a mão que sobe pela sua perna, deixa que o homem a toque, se arrepia, não consegue se mexer, é preciso dizer não, abre os olhos, ele se aproxima e a beija violentamente, morde, machuca, ela não sente prazer, nem medo, apenas vida.


Em italiano*:


L'uomo meno strano


Lei prende il primo bus che sosta in quella fermata, il vento le taglia le labbra. Da giorni non guarda la strada, non vuole.
Il bus è affollato ma le piace l’odore della gente, da tanto non vede nessuno. Ce n’erano dei posti vuoti in fondo, ma sceglie quello dove si trova l’uomo meno strano e si siede, la gamba sfiora quella dell’uomo, non lo guarda nemmeno in faccia, non importa.
La gamba vestita di seta le dà la sensazione di una seconda pelle, scivola, sente piacere nel toccare leggermente la gamba di quello strano, fingendo di sfiorarlo per caso.
Chiude gli occhi, ispira l’aria mescolata di odori.
Finale di giornata, ogni odore una storia, con gli occhi ancora chiusi, indovina che l’uomo al suo fianco ha moglie e figli che l’aspettano.
Fa sempre così, prende un autobus qualsiasi, sceglie le giornate più grigie, quelli in cui intuisce che non sopporterà stare da sola. Così vicina a quell’uomo si sente riscaldata, lui non si ritira anzi, fa pressione nella coscia, coscia aperta contro coscia. Finge di non sentire la mano che sale per la sua gamba, lascia che l’uomo la tocchi, rabbrividisce, non riesce muoversi, bisognerebbe dire di no, apre gli occhi, lui si avvicina e la bacia con violenza, morde, schiaccia, lei non sente piacere, né paura, si sente soltanto viva.

*Agradeço a tradução de Eliude Santana que o fez gentilmente. Contardo Calligaris disse estar perfeita- como sabem- ele é italiano.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Natal na Vila- Miniconto



Natal na Vila
  

O silêncio, tão desejado, pesa nesta época. Os vizinhos saem com as crianças para longos dez dias de férias, apenas ela fica na vila. O irmão perguntou se queria viajar, já conhecia a resposta, difícil ela sair, ainda mais nestes dias. Depois da morte da mãe, nem ceia não faz, apenas um panetone, um presunto assado e frutas do mercado da esquina. Varia as frutas, afinal é dia de festa. O presunto assa com cuidado, regando para não ressecar.
Não sente falta da família, antes ficava mal humorada, agora não precisa mais fazer de conta. 
Gosta da solidão, não gosta da falta dos ruídos conhecidos. Os pássaros sumiram por causa da chuva, a praça esvaziou-  o povo desaparece como mágica. Dia 25, então é pior, ninguém nas ruas, tudo fechado, todos em casa. Quando a mãe era viva, levava a mãe para caminhar, iam até a praia dar uma volta- ela com as pernas inchadas de tanto ficar em pé na véspera-  caminhava lentamente. Sentavam num banco da praia a olhar o mar.
Não tem saudades, fica com raiva quando se vê como a mãe, azeda. Apenas lembra.
Amanhã, já decidiu, fará diferente, vestirá a roupa nova que fez, pegará um ônibus e fará um longo passeio pela cidade.


domingo, 15 de maio de 2011

O casaco que ele veste

Além dela, havia uma mulher muito magra, lábios finos, cabelos mal tingidos, e ele. Ele vestia um agasalho, destes com fecho na frente. Tinha os olhos grudados num livro. Ao abri-lo, deixou cair um marcador. Ela desejou pegar, mas não teve coragem. Observou-o atentamente. Ele não percebia a presença dos outros. O cabelo grisalho, sem corte, o rosto marcado pelo nariz e rugas de expressão. Usava óculos para leitura. A testa, às vezes, franzia, ou a boca entortava, num sorriso esgar. Há meia hora estavam ali. Imaginava qual seria o problema dele. Pensava em como alguém pode estar tanto tempo entre outras pessoas e não vê-las. Poderia ser um arrogante, daqueles que não se misturam e fingem estar sós. Mas, algo nele a comove. O casaco que ele veste lhe dá desejo de se aconchegar. A sala é fria, muito fria. Imagina-se muito perto e seus olhos nela. Imagina a mulher magra entrando na sala do médico e os dois na sala vazia. Então, ele a beijaria enfiando as mãos entre suas pernas, abrindo com os dedos magros sua fenda úmida. Ela o beijaria com ternura, ele não. Ele a desejaria desesperadamente, morderia seus lábios, que sangrariam. Ela sabe que há muito ele não tem uma mulher.

Casulo





Dormiu mal à noite. Lembrava dele.

Esperou às onze horas para ligar. Ele acorda tarde, prefere trabalhar de madrugada.

- Feliz aniversário, meu amor! Estou saindo para te dar um beijo.

- Ok. Venha.

Ele abriu a porta sorrindo, meio encabulado. Ela o abraçou apertado, beijou suas faces.

Trazia nas mãos um envelope e uma caixinha.

- O que é isso?

- Para você. Abra com cuidado, pode quebrar.

Enquanto abria, ele sorria. Sacudiu a cabeça e disse:

- Meu Deus! Você não tem jeito... É muito bonito. Onde arranjou isto?

- Catei à beira mar.

Abriu o desenho: um casal enroscado.

Então, ela, que mal se continha, jogou-o para trás no sofá e beijou seus olhos, sua boca, suas faces. Gemia de prazer.
Aí, levantou e disse:

- Já sei, você tem que trabalhar. OK., nos vemos de noite ou vai dar para almoçarmos juntos?

- Não, querida, não vai dar.

Enquanto ela saía, ele pensava em como dizer-lhe que viajará no final do mês. Não gostaria de magoá-la, ao mesmo tempo não quer como companhia.

Pegou a caixa com o tubo de ensaio, observou aquelas conchinhas, que não são conchas na verdade, são casulos de alguma espécie marinha. Tão belas e tão frágeis. Lembram madrepérolas. Pensou nos presentes que ela lhe dá, sempre bonitos e frágeis, como ela. E no amor-casulo que os envolve.
E se entristeceu.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Um amanhecer





A xícara não estava na mesa como eu deixara na véspera. Sabia que ele havia acordado mais cedo e voltado para o quarto. Faz isto quando está aborrecido e não quer me ver.
Sinto alívio. Não precisarei dar o bom dia antes do meu desjejum. Gosto de ficar em silêncio ao despertar. Odeio quando dormimos juntos e ele me desperta encostando o pênis nas minhas costas, arfando.
Não desejo nada além de lembrar meus sonhos. Desconfio que me ajudem a viver melhor. Gosto de anotá-los.
Acabo de tomar o café, sigo para a frente da casa- o cão me aguarda. Troco a água do bicho, molho as plantinhas- tenho poucas, eu mesma, aos poucos, vou dando forma ao jardim.
Passava de dez horas quando o vi me espreitando da sala. Digo: “Bom dia!” Responde com um aceno.
Sei que teremos um dia longo e silencioso.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Vil


Vil


“Tire as mãos de mim”... A música a persegue como um perfume.
“Ele era mil, tu és nenhum, na guerra és vil”...
Escreve para tentar exorcizá-lo. Há dias não aparece nos seus sonhos. Hoje, desde que o coração descompassado a despertou, tudo dói. Ela pensa nele e no outro, ambos a feriram. Impiedosos. Filhos da puta, pensa. Um dia terão o troco, pragueja.
Mais tarde, fará orações pedindo perdão a Deus. Queria ser herética. Não pode. Teme a ira divina.

terça-feira, 26 de abril de 2011

De saltos altos- revisto




Ela passa uma, duas, três vezes na calçada em frente. Quem a vê pensa que é louca. Pisa firme com os saltos altos. O toc toc a denuncia. Traz algo nas mãos, de longe parece um terço, mas não é, conheço bem aquele cordão, ela não o larga, diz que dá sorte. Olha alternadamente para a casa e para o fim da rua. Pensa que ainda não cheguei. Há quase uma hora está ali, andando de um lado para o outro- impaciente. Conheço esta impaciência, ela quer me pegar de surpresa, está com o discurso pronto, adivinho o que diria se abrisse a porta ou me vislumbrasse atrás da cortina:
- Seu cretino, filho da puta, como foi sair com ela? Eu pedi tanto que se afastasse daquela vagabunda!
Logo a raiva se dissiparia, basta fixar bem os olhos nos olhos dela e sorrir. Ela desmonta, vem correndo para meus braços, chora, me faz jurar que nunca mais a farei sofrer. Não digo nada, não posso lhe dizer que também amo a outra.
Vejo suas belas pernas cobertas por meias pretas. “Só uso meias pretas.”
Sei que se abrir a porta, beijarei aquele rosto até que ela sorria: “Você é um cretino”, dirá sorrindo entre um suspiro e outro, minhas mãos deslizando nas coxas lisas, seda pura. Ela estará exausta de tanto esperar, serei eu o condutor, não pedirá nada, se entregará como sempre, como se fosse a última.
Ela sabe que pode estar certa.

No beco/ sem revisão

Ele estaciona o carro num beco escuro.
Diz: “Deixa, deixa, quero te ver nua”...
Ela reluta, sabe pouco dele. Ele insiste beijando sua nuca, sua boca. Sussurra:
- “Quero tanto te tocar nua”...
Ele abre sua blusa, beija seu colo, com a boca tira os seios para fora e beija seus mamilos até que, num frêmito, ela goza envergonhada.
Desce na esquina de casa. Enquanto ajeita a roupa fita os olhos dele, percebe que a partir dali é sua presa.

sábado, 16 de abril de 2011

Na vitrine

Com o coração descompassado atravessou a rua correndo. O motorista do táxi freou, buzinou irritado. Era ele do outro lado da rua, sabia. Vestia uma camisa xadrez por dentro da calça e cinto de couro. “Está diferente, mas é ele”. Temia que desaparecesse. Estava diante de uma vitrine. Tocou levemente o seu braço. Ele virou-se, disse desconcertado:
- "Minha mulher está ai dentro, não posso falar com você". Virou-se e dirigiu-se à porta.
Parada na vitrine não o via. Não via nada.
Saiu, caminhar lento, esbarrando nas pessoas, lágrimas vertiam.
Na esquina, parada no meio fio, alguém lhe perguntou se precisava de ajuda.
- “Não obrigada”, acredita ter dito. Não queria mais nada.
Tempo interminável até se jogar no sofá aos prantos. Pensava no porquê do gesto, tantos meses se passaram...
Estava bonito e bem cuidado. Adivinha uma jovem ao seu lado que o obriga a se cuidar. Ela não saberia dizer: "Não beba mais por hoje". Bebiam juntos, se amavam embriagados, jurando amor eterno.
Viu na cristaleira a garrafa de whisky, intocada, deixada por ele.
Deixou-se estar no sofá até que o cão viesse, esfomeado, pedir para que lhe desse de comer.
Ela não precisaria comer estes dias, sabia.

Fala vazia

Na hora marcada dei dois toques na porta e abri. Estava sentado numa poltrona bege, me olhou meio de lado, olhos curiosos, leve sorriso- eu já conhecia este sorriso. Os olhos rápidos me desnudaram em segundos, fiquei paralisada com a mão na maçaneta da porta. Esperei que dissesse: ”Entre”.
Vestia camisa azul, os cabelos mais brancos. Era a primeira vez que me via. Levantou, me deu dois beijinhos atrapalhados na face, e indicou-me a outra poltrona onde sentei. O envelope que eu trazia caiu, nos abaixamos juntos para pegar.
Eu disse: ”Trouxe para você, espero que goste”.
- “É muito bom o seu traço, obrigado. Como foi a viagem?”
Desandei a falar, queria preencher este espaço de tempo, nós dois sabíamos o que viria depois.
Eu falava, ele parecia não ouvir, olhava meu rosto, minha boca, os olhos desenhavam meus traços. Eu não conseguia me concentrar no seu rosto, tão confusa me sentia. Percebeu que me perdia e sorriu da minha fala vazia.
Levantou-se, parou à minha frente, estendeu as mãos e disse:
- Levante-se.
Obedeci.