sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Miniconto: As velhas/ sem revisão

A mais velha não desgruda os olhos da TV, a cada meia hora diz:
- “Não aquento mais viver, quero ir embora... lá para cima”.
A outra:
- ”Será? Vá caminhar um pouco".
- “Não gosto mais de sair".
Levanta apenas para comer e dormir. Quando desocupa a poltrona a outra vem sacudir a colcha e varrer o chão.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Miniconto: De saltos altos

De saltos altos



Ela passa uma, duas, três vezes na calçada em frente. Quem vê pensa que é louca. Pisa firme com os saltos altos; o toc toc a denuncia. Traz algo nas mãos, de longe parece um terço, mas não é, conheço bem aquele cordão, ganhou de um amigo grego, diz que dá sorte. Olha alternadamente para a casa e para o fim da rua. Acredita que ainda não cheguei. Faz quase uma hora que está ali, andando de um lado para o outro. Conheço essa impaciência, ela quer me pegar de surpresa, está com o discurso pronto, adivinho o que diria se abrisse a porta ou me vislumbrasse atrás da cortina:
- Seu cretino, como foi sair com ela? Pedi tanto que se afastasse daquela vagabunda!
- Você está delirando, não saí com ninguém. Ficou louca?
- É você quem me enlouquece, cretino!
- Mas eu não saí com ninguém...

Não contenho o sorriso. Não nego o prazer em vê-la assim perdida, não diria desesperada, apenas perdida.
Ela, tão cheia de certezas...
Vejo aqueles olhos nos meus, esfomeados, querendo me decifrar, percebo seu desconserto.
É meu o próximo passo, ela sabe.
Logo a raiva se dissiparia. Nunca brigamos, basta fixar-me nos olhos dela e sorrir. Ela desmonta, chora, me faz jurar que nunca mais a farei sofrer. Eu não digo nada, não posso lhe dizer que também amo a outra.
Vejo suas belas pernas cobertas por meias pretas, os saltos altos. “Só uso saltos altos”- ela gosta de dizer.
Sei que se abrir a porta, beijarei aquele rosto até fazê-la sorrir. Não sobrevivo sem aquele sorriso.
Ela não sabe, apenas intui.

PS1: Se você já leu Desconserto, ai abaixo, verá que foi tirado daqui.
PS2: Este conto me lembra uma cena do livro de Javier Marias: "Coração tão branco". Quem o leu talvez lembre da mulher na calçada, ele na varanda.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Miniconto: Melhor assim
















Melhor assim

Só ao desligar o telefone percebeu a voz fria dela.
Pensou que deveria ter se calado, como tantas vezes. Ela declarava o amor transbordante, ele nada dizia. Desligava o telefone e sorria, ria da loucura, do amor exagerado dela. Hoje não há do que sorrir.
Ele a desdenha, mas gosta de vê-la enamorada- louca.
Há dias ela se calou. Pela primeira vez se calou.
Queria dizer que lamenta. Não diz.
Talvez ela não volte.
"Melhor assim", ele pensa.

Miniconto- Manhã de domingo

Manhã de domingo


Despertou com a mão dele em sua coxa, abria caminho entre suas pernas. Fingiu dormir. Ele continuou. Gemeu. Ele, então, colocou um dos braços sob o corpo dela e a enlaçou trazendo-a para mais perto. Abraçou-a com força.
Sentiu o cheiro de sono, o calor de sua nuca, sentiu conforto.
A luz que vinha da porta a incomodava, moveu o corpo para que ele mudasse de posição. Ele colocou o corpo sobre o dela, apoiava-se nos braços e a beijava no pescoço. Abriu os olhos, trouxe com as mãos o seu rosto, olhou cada traço, desenhou-o na memória. Este, que ela descobria, era pouco diferente daquele que ela sonhara.
Beijou os olhos que a olhavam ternos.
Pediu para que soltasse o corpo, deixasse o peso todo sobre ela. Queria sentir que ele era real. Queria inscrever aquele corpo no dela.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Vida prosaica







Vida prosaica



Amanheço separando roupas sujas. 

Mais tarde- varal- enquanto meu interior é ideias.

Algumas se perdem na vassoura ou ao vento.