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quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Miniconto: Na suíte

Suíte I


Ficou encantada ao ver-se no espelho com o vestido da patroa.
Dançou pela suíte, rodopiou.
Com a tesoura fez pequenos cortes nas roupas penduradas.
Ao bater a porta sabia que não haveria retorno.


A cela é fria, úmida, tem cheiro acre. O corpo está impregnado. As paredes narram histórias. É preciso contar os dias, não se perder, rezar- rezar para limpar a alma e esquecer.

É a primeira vez que fica só, vivia cercada no barraco. O marido sempre grudado, aquele pau duro nas coxas, na bunda, buscando caminho. Livrou-se da força daquelas mãos puxando-a, torcendo seus braços que amanheciam roxos.
Agora descobre um corpo que não conhecia, sem desejo, sem ódio.
Quando sair dali estará livre para viver.

Um dia, sabia, o mataria, fingiria gozar, quando ele estivesse de costas enfiaria uma faca com força em suas costas.
Desta vez teria o prazer de ver os seus olhos suplicarem.


PS: Ainda vou mexer neste conto, nunca acabam...

Publicado antes em 24/10/10

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Mini conto- arquivo: O relicário









 

O relicário



Ela deitou na tábua curtida onde o sol se esgueirava naquela manhã, ia deslizando no assoalho ainda frio.
Resta uma nesga de sol, quase uma linha que desenha um eixo,
corta ao meio seu corpo magro. Imagina que ele está sobre ela, inteiro.Tira a camisola. Fica nua.
Lembra da primeira vez que se deitaram.
Ela acabara de virar mulher, ele quase menino. Caminhavam na trilha até o açude. Tropeçou. Ele veio ajudá-la. E ali mesmo fizeram amor. Meses depois não era possível esconder mais a barriga. Casaram.
Antonio trouxe o relicário. A mãe, devota, escolheu o nome durante o difícil
parto.
Quando a jogava na cama, viril, cheio de desejo, antes cobria o Santo:
“Não quero que ele veja nossa sem- vergonhice".
Cansado da fome, vai em busca de trabalho:"Homem que é homem, traz o
sustento pra dentro de casa, Maria".
Parece que foi ontem que se despediu do marido encostada na porta, a barriga
grande, o olhar perdido no horizonte.
- "Pede pra nosso filho vingar, Maria", é cantilena no ouvido dela. O filho
não vingou, mas Antonio não sabe.
Certo dia um homem bate na porta:
- Você é Maria?
- Sou.
- Mulher de Antonio?
- É...
- Ele me falava de você. Pediu que viesse até aqui.
Ela adivinha o que ele tem para dizer. Lágrimas brotam dos seus olhos.
- Pediu para te dizer que arranjou o trabalho e que lá de cima vai cuidar de você e de seu filho.
- Como foi?
- Numa desavença, levou uma facada certeira, só teve tempo de dizer estas últimas palavras.
Ela fica em silêncio, engole o choro e diz:
- Se quiser, entre, lhe dou um copo d'água.
- Obrigado. Meu nome também é Antonio, Antonio da Silva, ao seu dispor.


Este conto está neste livro.
*Clique na imagem e leia- há uma frase lá.

terça-feira, 24 de maio de 2011

O homem menos estranho- L'uomo meno strano(tradução)






O homem menos estranho


Pega o primeiro ônibus que para no ponto, o vento corta seus lábios. Há dias não vê a rua, não quer.
O ônibus está abafado, mas gosta daquele cheiro de gente, tanto tempo não vê gente. Havia lugares vazios nos últimos bancos, escolhe o que tem o homem menos estranho e senta, perna encostada na perna do homem, nem viu a cara, não importa. A perna revestida de seda dá sensação de segunda pele, desliza, sente prazer em roçar disfarçadamente no estranho. Fecha os olhos, inspira o ar misto de cheiros. Final do dia, cada cheiro uma história, de olhos fechados adivinha que o homem ao lado tem mulher e filhos à espera.
Faz isto sempre, pega um ônibus qualquer, escolhe os dias cinzentos, aqueles que intui não suportará ficar tão só. Estar colada ao homem a esquenta, ele não se afasta, mas pressiona mais a coxa, coxa apertada contra coxa. Finge não sentir a mão que sobe pela sua perna, deixa que o homem a toque, se arrepia, não consegue se mexer, é preciso dizer não, abre os olhos, ele se aproxima e a beija violentamente, morde, machuca, ela não sente prazer, nem medo, apenas vida.


Em italiano*:


L'uomo meno strano


Lei prende il primo bus che sosta in quella fermata, il vento le taglia le labbra. Da giorni non guarda la strada, non vuole.
Il bus è affollato ma le piace l’odore della gente, da tanto non vede nessuno. Ce n’erano dei posti vuoti in fondo, ma sceglie quello dove si trova l’uomo meno strano e si siede, la gamba sfiora quella dell’uomo, non lo guarda nemmeno in faccia, non importa.
La gamba vestita di seta le dà la sensazione di una seconda pelle, scivola, sente piacere nel toccare leggermente la gamba di quello strano, fingendo di sfiorarlo per caso.
Chiude gli occhi, ispira l’aria mescolata di odori.
Finale di giornata, ogni odore una storia, con gli occhi ancora chiusi, indovina che l’uomo al suo fianco ha moglie e figli che l’aspettano.
Fa sempre così, prende un autobus qualsiasi, sceglie le giornate più grigie, quelli in cui intuisce che non sopporterà stare da sola. Così vicina a quell’uomo si sente riscaldata, lui non si ritira anzi, fa pressione nella coscia, coscia aperta contro coscia. Finge di non sentire la mano che sale per la sua gamba, lascia che l’uomo la tocchi, rabbrividisce, non riesce muoversi, bisognerebbe dire di no, apre gli occhi, lui si avvicina e la bacia con violenza, morde, schiaccia, lei non sente piacere, né paura, si sente soltanto viva.

*Agradeço a tradução de Eliude Santana que o fez gentilmente. Contardo Calligaris disse estar perfeita- como sabem- ele é italiano.

domingo, 15 de maio de 2011

O casaco que ele veste

Além dela, havia uma mulher muito magra, lábios finos, cabelos mal tingidos, e ele. Ele vestia um agasalho, destes com fecho na frente. Tinha os olhos grudados num livro. Ao abri-lo, deixou cair um marcador. Ela desejou pegar, mas não teve coragem. Observou-o atentamente. Ele não percebia a presença dos outros. O cabelo grisalho, sem corte, o rosto marcado pelo nariz e rugas de expressão. Usava óculos para leitura. A testa, às vezes, franzia, ou a boca entortava, num sorriso esgar. Há meia hora estavam ali. Imaginava qual seria o problema dele. Pensava em como alguém pode estar tanto tempo entre outras pessoas e não vê-las. Poderia ser um arrogante, daqueles que não se misturam e fingem estar sós. Mas, algo nele a comove. O casaco que ele veste lhe dá desejo de se aconchegar. A sala é fria, muito fria. Imagina-se muito perto e seus olhos nela. Imagina a mulher magra entrando na sala do médico e os dois na sala vazia. Então, ele a beijaria enfiando as mãos entre suas pernas, abrindo com os dedos magros sua fenda úmida. Ela o beijaria com ternura, ele não. Ele a desejaria desesperadamente, morderia seus lábios, que sangrariam. Ela sabe que há muito ele não tem uma mulher.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Miniconto: As velhas/ sem revisão

A mais velha não desgruda os olhos da TV, a cada meia hora diz:
- “Não aquento mais viver, quero ir embora... lá para cima”.
A outra:
- ”Será? Vá caminhar um pouco".
- “Não gosto mais de sair".
Levanta apenas para comer e dormir. Quando desocupa a poltrona a outra vem sacudir a colcha e varrer o chão.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Madrugada

Foto daqui



Madrugada


O cão ladra à noite. Assustada olha o jardim. Nada. Olha o quintal. Nada. O cão late insistente.
Tranca a porta do quarto. Dorme encolhida.

Pela luz solar sabia que passava das nove. Procurou não demorar para descer. Abriu a porta da frente com cuidado. Nada mudara. Caminhou à direita no estreito corredor. Ali jazia um homem- a camisa xadrez aberta no peito, a calça rota mostrava um ventre inchado. Não sabe por que não teve medo. Passou ao lado do corpo com cuidado para não esbarrar no braço frouxo. Percebeu que respirava. Sentiu alívio.

Antes de ligar para a emergência, vestiu uma roupa de sair, passou batom e tomou o café da manhã na sala.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Mini conto: Quase amargo

Quase amargo


Viu os olhos dele a fulminarem quando disse:
Não mudo uma vírgula na minha vida por você.
Lança afiada no coração. Por uns segundos, pensou como viveria sem
ele.
Mas o amor dela é tanto que supre o dele. "Homem maduro, coração
duro.
Foi até a cozinha. Fez o café como ele gosta- quase amargo. Ao oferecer a xícara seus olhos eram frios. Deixou que tomasse o café, aproximou-se. Beijou seus lábios até adocicarem e ele a tomar nos braços. Ela o amaria mais densa que nunca- teve os segundos de luto - beijaria aquele corpo religiosamente até ele lhe oferecer o gozo em jorros e entrega.
Lavou o sexo com força.
Depois, na praia, se jogou na areia molhada. Pensava: se o mar me quiser, que leve.
A maré rasa não a carregou.
Levantou quando ouviu vozes de crianças em volta.
Foi seu ultimo carnaval.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Mini conto: O analista triste

E havia o vento num sopro de morte, atormentando. Desde o amanhecer o vento invadindo todos os espaços, uivando como cão.
Encolhe-se. Na porta, o gato mia- quer sair. Logo o interfone tocará. Pensa no cliente a caminho para que o ouça. Sabe que ele o tirará dali e estará feliz no fim do dia.



Ou 


O vento vinha num sopro de morte, atormentando. Desde o amanhecer o vento invadindo todos os espaços, uivando.
Encolhe-se. Na porta, o gato mia- quer sair. Logo o interfone tocará.  Pensa no cliente a caminho para que o ouça. Urge levantar-se, escovar dentes, tomar café.
Sabe que no fim do dia estará feliz..

domingo, 17 de outubro de 2010

Mini conto: Ruídos internos


Magritte aqui



Ruídos internos


Ela diz para si num murmúrio:
"Estou exausta, quando terei trégua?"
Enxuga as lágrimas na manga, enquanto torce mais uma camisa.
Lá fora as crianças riem, correm pela grama. Um deles a vê na janela e grita: Mãe...
Chora, mais ainda, ao ver o menino sorrindo, esperando seu aceno.
Larga a roupa no tanque e volta para o fogão, enxuga as mãos frias na roupa. Abre a tampa quente da panela sem proteção. Deixa-se queimar. Uma dor real a traria de volta, pensa. O filho parece tão longe dela, tão improvável como quando dizia: "Jamais terei filhos, quero liberdade".
Desliga o fogo antes que o feijão queime, logo o menino abrirá a porta aos gritos:
- Mãe, estou com fome, faça o prato pra mim.

Ela sorrirá beijando a bochecha suada e com cheiro de moleque.

domingo, 3 de outubro de 2010

Miniconto: Ata-me II - revisto



Semidesperta olha a janela sem cortinas. Encolhe-se fugindo do sol que aquece a cama. Cobre os olhos com o lençol. Ouve ruídos.
A vida é laço esgarçado- desfaz-se.
Desatar nós, atar.

Semidesperta adivinha a duna dourada, as vacas pastando. Encolhe-se, mais ainda, fugindo do sol que toma cama. Cerra os olhos.
Um cheiro familiar. Alguém faz café. O estômago dói. O corpo tem fome. Ela não.

Desatar nós, atar.

Como se a mão que os aperta é frouxa?

sábado, 21 de agosto de 2010

Mini conto: A viagem II



A viagem



Entrou no ônibus batendo as bolsas nas poltronas. Seu lugar estava ocupado. Uma mulher pediu que trocasse com ela- queria ficar ao lado do marido. Concordou, e voltou buscando seu assento. Um homem, de cabelo gris, a olhou curioso, levantou-se e a ajudou a acomodar-se. Era seu vizinho de banco.

Ela abriu o jornal e lhe ofereceu. Passaram a comentar as notícias. Pode, então, ver o rosto dele- olhos pequenos e penetrantes, nariz reto, boca bem desenhada, um sorriso maroto. Usava um pulôver de gola alta. Fazia frio. Sentiu-se perturbada. Olhou a janela, passavam por uma pequena serra.

Pensou que o destino o enviara e que poderia se enamorar por aquele rosto. Com voz grave, mais baixa, comentou que curvas a lembravam as Serras da infância, o pai dirigindo o Chevrolet preto a caminho do mar.

Um longo silêncio e pode sentir o calor do corpo dele. Retraiu-se.

Perguntou como foi ele, menino. Tinha recordações semelhantes, apenas as cidades eram outras. Os pais militares, as mães católicas, os colégios rígidos.

Desejou saber mais- se ele era casado. Não ousou- adivinhou.

Ela lhe contou do ex marido, dos filhos, das idas e vindas para trabalhar. Ele a ouvia atento, os olhos a perscrutarem seu rosto. Disse: Você tem um belo rosto de mulher madura, e fica muito bem de preto. Ela disse que aquela era sua cor preferida.

Em silêncio pensou na confusão ao se vestir, na sorte de ter usado aquela blusa..

O ônibus chegou ao seu destino, trocaram telefones.

Há um mês ela aguarda os olhos dele. Conforta-se ouvindo a voz doce a dizer-lhe que é bela. Talvez numa outra viagem...

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Mini conto- arquivo: Um amor sem face




Esta semana não o entrou na internet, é a primeira vez que desaparece. Fica horas em frente da tela e nada.
Se correspondem há três anos. Logo notou que ele sabia escrever, gostava das palavras que usava. Acabaram amigos virtuais, amantes clandestinos.
Não sabe quase nada dele, apenas que é engenheiro, vive com dois filhos. Nunca falou da mulher, nem ela perguntou. Uma vez, ela disse: “Irei até ai estes dias, tenho que fazer uma compra”. Ele não manifestou desejo de vê-la, ela não disse nada.
Nunca se viram nem em foto. Algumas vezes teclam uns minutos e ele diz: "Preciso te ouvir hoje". Só ele telefona.
Está se mudando para perto dele, desta vez ele disse: "Quem sabe nos encontramos?". Ela tem calafrios só de pensar num encontro. Talvez fiquem assim, se amando de longe, um amor sem face.
Todas as semanas ela se arruma como se fosse encontrá-lo, não sai de casa, apenas o espera em frente à tela e pensa:
"Quem sabe ele não virá neste fim de semana?"
Espera que ele adivinhe o seu desejo.

Mini conto- arquivo: Um amor sem face




Esta semana não o entrou na internet, é a primeira vez que desaparece. Fica horas em frente da tela e nada.
Se correspondem há três anos. Logo notou que ele sabia escrever, gostava das palavras que usava. Acabaram amigos virtuais, amantes clandestinos.
Não sabe quase nada dele, apenas que é engenheiro, vive com dois filhos. Nunca falou da mulher, nem ela perguntou. Uma vez, ela disse: “Irei até ai estes dias, tenho que fazer uma compra”. Ele não manifestou desejo de vê-la, ela não disse nada.
Nunca se viram nem em foto. Algumas vezes teclam uns minutos e ele diz: "Preciso te ouvir hoje". Só ele telefona.
Está se mudando para perto dele, desta vez ele disse: "Quem sabe nos encontramos?". Ela tem calafrios só de pensar num encontro. Talvez fiquem assim, se amando de longe, um amor sem face.
Todas as semanas ela se arruma como se fosse encontrá-lo, não sai de casa, apenas o espera em frente à tela e pensa:
"Quem sabe ele não virá neste fim de semana?"
Espera que ele adivinhe o seu desejo.

sábado, 10 de julho de 2010

Mini conto- Sábado à noite

Ele riu quando ela disse para o garçom: Para mim, um Martini com gelo e cereja. Só bebe whisky caubói. Sente prazer ao frisar: sem gelo, por favor. No caminho para casa, ela é seu apoio - as pernas trôpegas, a fala exaltada. Na cama, ela se entrega sem desejo, quer dormir antes do amanhecer, que se anuncia. Exausto, ele cai para o lado. O quarto rescende a álcool.

Ela se levanta, vai ao banheiro, come uma maçã e deita- se de costas.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Mini conto 03- arquivo: O homem menos estranho






O homem menos estranho


Pega o primeiro ônibus que pára no ponto, o vento corta seus lábios. Há dias não vê a rua, não quer.

O ônibus está abafado, mas gosta daquele cheiro de gente, tanto tempo não vê gente. Havia lugares vazios nos últimos bancos, escolhe o que tem o homem menos estranho e senta, perna encostada na perna do homem, nem viu a cara, não importa. A perna revestida de seda dá sensação de segunda pele, desliza, sente prazer em roçar disfarçadamente no estranho. Fecha os olhos, inspira o ar misto de cheiros. Final do dia, cada cheiro uma história, de olhos fechados adivinha que o homem ao lado tem mulher e filhos a espera.

Faz isto sempre, pega um ônibus qualquer, escolhe os dias cinzentos, aqueles que intui não suportará ficar tão só. Estar colada ao homem a esquenta, ele não se afasta, mas pressiona mais a coxa, coxa apertada contra coxa. Finge não sentir a mão que sobe pela sua perna, deixa que o homem a toque, se arrepia, não consegue se mexer, é preciso dizer não, abre os olhos, ele se aproxima e a beija violentamente, morde, machuca, ela não sente prazer, nem medo, apenas vida.


Em italiano:

L’uomo meno strano


Lei prende il primo bus che sosta in quella fermata, il vento le taglia le labbra. Da giorni non guarda la strada, non vuole.
Il bus è affollato ma le piace l’odore della gente, da tanto non vede nessuno. Ce n’erano dei posti vuoti in fondo, ma sceglie quello dove si trova l’uomo meno strano e si siede, la gamba sfiora quella dell’uomo, non lo guarda nemmeno in faccia, non importa.
La gamba vestita di seta le dà la sensazione di una seconda pelle, scivola, sente piacere nel toccare leggermente la gamba di quello strano, fingendo di sfiorarlo per caso.
Chiude gli occhi, ispira l’aria mescolata di odori.
Finale di giornata, ogni odore una storia, con gli occhi ancora chiusi, indovina che l’uomo al suo fianco ha moglie e figli che l’aspettano.
Fa sempre così, prende un autobus qualsiasi, sceglie le giornate più grigie, quelli in cui intuisce che non sopporterà stare da sola. Così vicina a quell’uomo si sente riscaldata, lui non si ritira anzi, fa pressione nella coscia, coscia aperta contro coscia. Finge di non sentire la mano che sale per la sua gamba, lascia che l’uomo la tocchi, rabbrividisce, non riesce muoversi, bisognerebbe dire di no, apre gli occhi, lui si avvicina e la bacia con violenza, morde, schiaccia, lei non sente piacere, né paura, si sente soltanto viva.


Este conto foi seleccionado num concurso de minicontos no site italiano www.domist.net e gentilmente traduzido por Eliude Santana, não está mais online- foi em 2005.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Mini conto- arquivo: Santinha

Acorda com o choro do filho da vizinha, quer dormir mais. Não suporta o choro que vem, invade tudo, tapa os ouvidos com o lençol. Ainda bem que tem o ventre seco, Deus sabe o que faz, dizia a mãe, vai ver tinha razão, a velha.

Lembra do sonho do beijo. Santinha, ele disse na carta de ontem- envia mensagens de santos- fazem mal. E se não passar adiante será condenada? Ou já é condenada pelo amor proibido?
Ele a beijava com pressa, sem envolvê-la com os braços. Beijo frio.

Diz na carta de ontem:

Tenho saudades de ti, Santinha.
Beijo na boca.
Do teu amor,
José

Não estranha, é mais um que se vai, já sabe.

domingo, 25 de abril de 2010

Mini conto do desafio do conto


A bela e o escritor


Ele, muito mais velho do que ela, encantou-se. Via elegância em todos os seus gestos. Casaram. O homem passava o dia a escrever, ela a ver revistas de moda. Ele lhe dizia: Deste livro, vais gostar. Deixando o objeto na mesinha ao seu lado. Antes de se voltar, beijava a nuca perfumada da mulher- sempre impecável. Depois leio, ela respondia.
O livro permanecia ali, intocável. Uma pilha se fazia. Os melhores livros para leitores jovens, ele pensava.
Um dia precisou sair. Ela disse: Vou aproveitar para ler hoje. Ficarei no seu escritório. Ele saiu saltitante. Finalmente ela entraria para o seu mundo.
Voltou na hora combinada, teriam um jantar. Ela estava no escritório. A luz acessa o conduziu animado. Bela, como sempre, com uma bomba na mão ela borrifava veneno na sua coleção predileta.


PS: Este continho é a resposta ao desafio do blog Com imagens com verso. Há uma imagem, você faz um conto, uma frase... Fiz este- foi divertido,porque a foto... ulalá.

sábado, 17 de abril de 2010

Mini conto X- Tudo lhe escapa


Tudo lhe escapa

A mão adormecida a despertou. Olha a janela- amanhece. Nada a fazer tão cedo.
Tenta dormir de novo, a fome não deixa. Lembra dele. Poderia voltar a dormir e sonhar. Não, não quer sonhar. Levanta, abre a janela e deixa o sol incipiente tomar conta da cama. Vai se movendo, acompanhando o feixe de luz. Primeiro nas costas, depois nas pernas. Abre-se, facilitando a entrega, deixa que o sol a tome.
O pensamento fugidio escapa para coisas banais- o que há na geladeira, as compras a fazer...
O corpo esfria. O sol se foi.
Ela se levanta, dá água para os gatos, coloca a água para o café- tem fome.

Mini conto- arquivo- Enrosco






Enrosco


Sente a mão que toca seu colo, finge dormir. Ele vai deslizando, toca sua mama, o mamilo enrijece. Não dá para fingir sono, geme dengosa. Ele vem e a beija. Ela enrosca as pernas nas dele, prende-o com força, ele finge querer sair mordiscando sua nuca. Ela o solta num movimento brusco. Seguem, agora, num só compasso.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Mini conto - arquivo- As pedrinhas transparentes




As pedrinhas transparentes



Aos domingos, na praia, catava pedrinhas, escolhia as transparentes. Gosta de transparências.

Um dia um homem se abaixou e lhe ofereceu uma pedrinha. Seguiram juntos catando pedrinhas. Acompanhou-a até sua porta, despediu-se com um ‘até domingo’. Ela sentiu algo diferente. Há muito não tinha contato com homens.

Esperou ansiosa o domingo. Saiu antes da hora de sempre, da calçada viu o homem à beira mar. Foi em sua direção, tímida.
Ele sorriu e seguiram caminhando pela areia. Falavam pouco, ela desacostumada de falar, ele só dizia o essencial.

No terceiro domingo, ele entrou em sua casa. Ela havia preparado a casa, sabia o que ele viria.
Se amaram ali na sala, no chão sobre a colcha que cobria o sofá. Ela desejou aquele homem em sua vida.
Enquanto ele se vestia, pegou um copo de conhaque, que o ex- marido usava, colocou as mais belas pedrinhas dentro, sobre as pedrinhas um caramujo. Ele não disse obrigado, apenas olhou com olhos de surpresa.
Quando se despediram, ele disse: “Até mais”. Não sabia o que ele queria dizer, mas não perguntou. Intuiu algo. Sentiu-se estranha, talvez não devesse ter dado as pedrinhas. Mas, e se ele voltasse mais tarde? Era domingo, poderiam sair.
Nada sabia dele.

No domingo seguinte ele não estava na praia. Pensou tantas coisas: poderia estar viajando, doente, viria mais tarde... Ele não veio. Esperou até o sol se pôr e sentir frio.

Os domingos passaram a ser vazios, já não o buscava mais entre outros rostos.
Não se importa mais com as pedrinhas, às vezes vê uma que gosta muito, pega, olha na palma da mão, e a devolve para o mar.