segunda-feira, 24 de maio de 2010

Mini conto- arquivo- Suíte número um







Suíte número I

Ficou encantada ao se ver no espelho com o vestido da patroa.
Dançou pela suíte.
Com a tesoura fez pequenos cortes nas roupas penduradas.

Ao bater a porta sabia que não haveria retorno.

Miniconto- arquivo: A lua se esconde




A lua se esconde


Descia a rampa da garagem do prédio dele, vinha atenta naquele labirinto estreito. Uma angústia a invadiu. Por que o desejo de chorar? Cheira o braço, ainda o perfume dele. Por que a dor?
"Eu te amo", disse. Ele a olhou e beijou seus lábios com ternura. O corpo dele ainda no dela. Precisava dizer: "Eu te amo". Agora, as palavras ressoam, doem.
Ele não disse que a amava, nunca disse. Prometeu amor à outra, ela sabe. Então, por que sofre?

Na rua respira fundo.Busca a lua entre os prédios altos e frios. A lua se esconde.
Senta no primeiro bar que encontra.
“Dose dupla, garçom".

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Mini conto- arquivo: Santinha

Acorda com o choro do filho da vizinha, quer dormir mais. Não suporta o choro que vem, invade tudo, tapa os ouvidos com o lençol. Ainda bem que tem o ventre seco, Deus sabe o que faz, dizia a mãe, vai ver tinha razão, a velha.

Lembra do sonho do beijo. Santinha, ele disse na carta de ontem- envia mensagens de santos- fazem mal. E se não passar adiante será condenada? Ou já é condenada pelo amor proibido?
Ele a beijava com pressa, sem envolvê-la com os braços. Beijo frio.

Diz na carta de ontem:

Tenho saudades de ti, Santinha.
Beijo na boca.
Do teu amor,
José

Não estranha, é mais um que se vai, já sabe.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Miniconto- arquivo- O telefonema


Michal Zaborowski



O telefonema


O telefone soa e quebra o silêncio de dias.
Choveu sem parar, chuva fina com vento frio. Nem jornal foi comprar, ficou só com a TV e o cachorro. Quanto mais fica só, mais quer ficar.
"Quem seria no telefone?" pensou. Quase não atendeu.
- João, é João. Não me reconhece mais?
Levou uns segundos para lembrar da voz.
Soube sobre sua mãe, quis saber como aconteceu. Ela contou, mas não se comoveu como sempre.
- Sabe que gosto de você...
- Mas casou com outras, não comigo.
- Você não me quis...
Mentira, ela pensou:
- Você estava envolvido com outra mulher.
- Nem me lembre, vivi um inferno.
(...)
- Você está casado?
- Vivo com alguém.
- Com aquela com quem te vi na última vez?
- Não.
Quando desligou ficou no sofá uns minutos. Ele esteve na cidade e não veio vê-la.
- Não deu tempo, foi só um dia, eu dependia de outros, ele repetiu, duas vezes.
Mentira, se desejasse, viria.
Talvez minta para si.
Desta vez não chorou.

domingo, 25 de abril de 2010

Mini conto do desafio do conto


A bela e o escritor


Ele, muito mais velho do que ela, encantou-se. Via elegância em todos os seus gestos. Casaram. O homem passava o dia a escrever, ela a ver revistas de moda. Ele lhe dizia: Deste livro, vais gostar. Deixando o objeto na mesinha ao seu lado. Antes de se voltar, beijava a nuca perfumada da mulher- sempre impecável. Depois leio, ela respondia.
O livro permanecia ali, intocável. Uma pilha se fazia. Os melhores livros para leitores jovens, ele pensava.
Um dia precisou sair. Ela disse: Vou aproveitar para ler hoje. Ficarei no seu escritório. Ele saiu saltitante. Finalmente ela entraria para o seu mundo.
Voltou na hora combinada, teriam um jantar. Ela estava no escritório. A luz acessa o conduziu animado. Bela, como sempre, com uma bomba na mão ela borrifava veneno na sua coleção predileta.


PS: Este continho é a resposta ao desafio do blog Com imagens com verso. Há uma imagem, você faz um conto, uma frase... Fiz este- foi divertido,porque a foto... ulalá.