quarta-feira, 22 de abril de 2015

O calendário- miniconto










 O calendário


“Eu te amo”, ela disse repetidas vezes. Ele buscou seus olhos e beijou-a mais uma vez.
Ela não sorriu, como sempre. Uma lágrima discreta deslizou até a almofada - o mesmo tecido sedoso onde  na véspera, chorou.
Semidesperta, pensa nele. Ontem, ao pagar uma conta ganhou um pequeno calendário do próximo ano. Com olhos vorazes, procurou em março o dia do aniversário dele. Faz isso há anos. Agora não mais importa, antes precisava saber, os fins de semana eram da família, não dela.
Há dias em que chora no cetim a sua falta, em outros sonha com suas mãos tocando sua pele. Então, sorri.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Miniconto: Na suíte

Suíte I


Ficou encantada ao ver-se no espelho com o vestido da patroa.
Dançou pela suíte, rodopiou.
Com a tesoura fez pequenos cortes nas roupas penduradas.
Ao bater a porta sabia que não haveria retorno.


A cela é fria, úmida, tem cheiro acre. O corpo está impregnado. As paredes narram histórias. É preciso contar os dias, não se perder, rezar- rezar para limpar a alma e esquecer.

É a primeira vez que fica só, vivia cercada no barraco. O marido sempre grudado, aquele pau duro nas coxas, na bunda, buscando caminho. Livrou-se da força daquelas mãos puxando-a, torcendo seus braços que amanheciam roxos.
Agora descobre um corpo que não conhecia, sem desejo, sem ódio.
Quando sair dali estará livre para viver.

Um dia, sabia, o mataria, fingiria gozar, quando ele estivesse de costas enfiaria uma faca com força em suas costas.
Desta vez teria o prazer de ver os seus olhos suplicarem.


PS: Ainda vou mexer neste conto, nunca acabam...

Publicado antes em 24/10/10

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Poeminha despretensioso- A dor maior











A dor maior
Amordaçada
Fala
No corpo
No coração

No indecifrável

sábado, 18 de outubro de 2014

Um dia arco-íris



Foto minha



Amanheci arco-íris,
Anoiteci lua em taça.
O meio?
Pleno.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Miniconto- A parede



Há três dias, ele não telefona. Ligo, a secretária eletrônica atende.
É insuportável. Não é a primeira vez que faz isto. Todas as vezes que o confronto é assim. Prometo, para mim mesma, que será a última.
Na primeira vez, me exasperei. Ele me disse: "Você me encosta contra a parede, viro parede". Nunca mais ousei confrontá-lo.
Não me pergunte porque o aguardo em silêncio.