terça-feira, 26 de julho de 2016

Miniconto- A lembrança roubada


A lembrança roubada


Atravessa o longo corredor, passos lentos. Desconhecidos, recostados na parede, o cumprimentam no trajeto até o quarto da mãe.
Vacila na porta, enquanto alguns familiares, que há muito não via, estendem a mão e se afastam para que fique só. Ela está com um vestido cinza, meias e sapatos pretos.  Sente um calafrio e deseja cobrir-lhe. “Sinto muito frio no inverno”, parece ouvi-la dizer. Toca com a mão esquerda a perna magra, antes forte. Vem a imagem dela subindo a montanha com seu irmão no ombro, o pai um pouco à frente. Urge fugirem- é guerra. Toca-lhe a testa, debruça-se e a beija.
O irmão aproxima-se e o abraça. Neste instante, percebe que a lembrança foi roubada- ainda não havia nascido.



terça-feira, 23 de junho de 2015

Miniconto- As loucas de amor




Olha-se no espelho. O corpo magro deixa expostas as costelas. Passa a mão no peito antes delineado. A pele do rosto sem cor, o nariz maior. Há manchas espalhadas, "manchas senis".
Ele ri, vê os dentes amarelados e mal cuidados. Ri mais ainda. Tantas possibilidades, tantas mulheres o desejaram. Ele nada. Travado. Esperava mais. Ria, ria do amor delas. Todas loucas. Loucas de amor.
Ele se escondia, se fazia de morto diante do fogo feminino. Elas enlouqueciam. Desesperadas se jogavam implorando afeto. Uma delas jogou-se, literalmente. Olhou o corpo na calçada, a mancha de sangue e pensou: “Ela poderia ter feito isto de sua casa, a infeliz me complicou. A louca, se jogou nua, nem a roupa vestiu.”
Ele lembra bem, ela levantou da cama e disse: "Não aguento mais, vou me matar". Ele disse: "Duvido...", rindo. Ela abriu a janela e voou.
Ele não tem coragem para alçar voo. Terá que esperar a morte, assim, definhando.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Minoconto: A magia da lua










A magia da lua


Queria, da janela, te olhar e dizer:
-  Venha ver que linda a lua!
Sei que, a sós, não verás além das pedras. Pisarás firme. Passos seguros sobre pedras antigas.
Teus olhos não veem a flor que nasce entre tijolos.
"Não tenho tempo para isto". E sorriria se eu mostrasse o tronco com forma de pernas femininas, pensando: "É tolinha e tão romântica..."
E eu diria de forma inaudível: Só tem olhos para livros e contas, e ainda:
e  para meu corpo.
Quando perguntasse o que eu resmunguei, responderia:
"Pensava em suas mãos nas minhas pernas, só isso".
Você me puxaria com força contra você. Eu riria alto.


O calendário- miniconto










 O calendário


“Eu te amo”, ela disse repetidas vezes. Ele buscou seus olhos e beijou-a mais uma vez.
Ela não sorriu, como sempre. Uma lágrima discreta deslizou até a almofada - o mesmo tecido sedoso onde  na véspera, chorou.
Semidesperta, pensa nele. Ontem, ao pagar uma conta ganhou um pequeno calendário do próximo ano. Com olhos vorazes, procurou em março o dia do aniversário dele. Faz isso há anos. Agora não mais importa, antes precisava saber, os fins de semana eram da família, não dela.
Há dias em que chora no cetim a sua falta, em outros sonha com suas mãos tocando sua pele. Então, sorri.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Miniconto: Na suíte

Suíte I


Ficou encantada ao ver-se no espelho com o vestido da patroa.
Dançou pela suíte, rodopiou.
Com a tesoura fez pequenos cortes nas roupas penduradas.
Ao bater a porta sabia que não haveria retorno.


A cela é fria, úmida, tem cheiro acre. O corpo está impregnado. As paredes narram histórias. É preciso contar os dias, não se perder, rezar- rezar para limpar a alma e esquecer.

É a primeira vez que fica só, vivia cercada no barraco. O marido sempre grudado, aquele pau duro nas coxas, na bunda, buscando caminho. Livrou-se da força daquelas mãos puxando-a, torcendo seus braços que amanheciam roxos.
Agora descobre um corpo que não conhecia, sem desejo, sem ódio.
Quando sair dali estará livre para viver.

Um dia, sabia, o mataria, fingiria gozar, quando ele estivesse de costas enfiaria uma faca com força em suas costas.
Desta vez teria o prazer de ver os seus olhos suplicarem.


PS: Ainda vou mexer neste conto, nunca acabam...

Publicado antes em 24/10/10