sábado, 25 de dezembro de 2010

Crônica: O dia em que meu filho me fez chorar



Aqui tem uma crônica minha sobre o Rio-Ipanema.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Miniconto: Nada além de boa noite



Ele ligou dizendo que não virá jantar, terá uma reunião de trabalho.
- “Ok. Vai chegar a que horas?”.
- “Assim que terminar a reunião, lá por dez horas, suponho”.
Não arrumei a mesa, como sempre, comi na cozinha. Antes de nos encontrarmos, eu lanchava à noite. Ele gosta de jantar, de um vinho.

Dez e meia e ele não chega. Não usa celular- odeia. Detesta falar ao telefone. Começo a ficar aflita. A cidade é perigosa.

Onze horas e ele não chega. Onze e dez: ele liga e diz que estão num bar comendo algo. Fico aliviada.

Resolvo deitar. Ele chega alta madrugada. Está trôpego, encontro-o na sala tirando os sapatos. Precisou sentar para não cair. Não é sempre que faz isto. Penso que felizmente não está dirigindo. Prefiro não dizer nada além de boa noite. Volto para a cama.

Minutos depois ele se joga ao meu lado sem usar o banheiro. Fico de costas. Ele me puxa, me vira, sinto o hálito de álcool. Tenho sono, quero dormir. Ele me beija e sobe sobre mim. Há meses não fazíamos sexo. Mesmo com sono me abro receptiva. Seu corpo está mais pesado. Não consegue se apoiar no braço.
Digo: “Está me machucando”.
Ele parece não ouvir. A ternura que tenho se esvai. Empurro-o com força, pego o pênis em ereção e aperto, agito, num sobe e desce, para facilitar. Ele joga-se para trás com prazer. Procuro olhar o sexo penetrando em mim- me dá prazer. A raiva desaparece. Quando ele está pronto me avisa: “Vem comigo”. Mentalizo o sexo em mim e gozo. Ele solta o corpo pesado.
Minutos depois ronca ao meu lado. Eu me levanto e me lavo.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Às quatro e dez- corrigido(hora)

Olhou o relógio atrás do balcão, três e meia, ele não viria mais. As mesas vazias, a tarde morna. O garçom, recostado no portal, olhava para ela e para a rua. Pediu uma água mineral. "Sem gelo, por favor", disse. Marcava quatro e cinco, quando entrou uma mulher. Escolheu a mesa do canto oposto, pendurou a bolsa na cadeira, enquanto sentava jogou o cabelo para trás. Rescendia a perfume.
Às quatro e dez, entrou um homem. Ela levantou-se, beijaram-se na boca. As roupas discretas contrastavam com as coloridas dela. Ele sentou, aproximou a cadeira, abraçou-a. Sorriam e beijavam-se. Os dois estavam com os lábios vermelhos e lambuzados de batom.
Os olhos da mulher que esperava turvaram. Disfarçou, abriu a bolsa, pegou o telefone- sem créditos- leu: “Querida, ainda estou na correria, mais tarde, passo na sua casa.”. Olhou para o garçom. Fingiu mandar uma mensagem.
Não viu quando anoiteceu, nem quando o casal saiu. O restaurante estava cheio quando sentiu a perna adormecida ao levantar-se.
Seguiu à direita em direção ao mar.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Fragmentos




Fragmento*

Na janela
                                                                                    
Menina paralisada, atrás do vidro, sofria.
Agora, abro o vidro. Jogo-me alada .



 A palavra

 “Coisa de prostituta! Faz engravidar!”. Ressoa nela a voz aguda da mãe.
Aos sete anos, mal entendia a fúria da mãe. Sentada de castigo na mesinha de cabeceira- pernas soltas no ar- chorava. Pouco depois seguiram para outra cidade.
Não virou puta. Do ventre, antes seco, pariu um dia um filho bastardo, num aborteiro. Sentiu alívio.


Confissão

Menina, uniforme azul e branco, sapatos apertados de verniz, atravessava a praça. A freira puxava a fila indiana de meninas silenciosas - olhos no chão.
“Eu pecador me confesso, eu pecador me confesso...”, ecoava em sua mente. Segurando o riso, contava os passos olhando a perna torta da menina da frente.
- Padre, quero me confessar.
- Quais os seus pecados, minha filha?
- Tive maus pensamentos.
 Urgia rezar mais.



O pai

Quando o pai mandou, aos gritos, que se vestissem e pegassem as roupas todas, ela não entendeu o que acontecia.
Caminharam em silêncio até o ônibus. A mãe chorava baixinho, cabeça baixa, mãos ocupadas por sacolas cheias.
Menina ainda, segurou firme a mão do irmão.
Desceram da condução com o pai quase os empurrando.
Na porta, o avô disse:
- Te entreguei um, você volta e são três. Fico com minha filha, você leva as crianças.
O pai responde:
 - Se não os quer, então os mate.
É a última lembrança que tem do pai.




Embaçado

No banheiro embaçado minha mãe me banhou. Esfregava meu corpo franzino com força. Chorava sem parar. "Lave bem aí embaixo, senão fica com mau cheiro", disse me entregando uma bucha. Esfreguei até doer. Chorei sob a água até ela me gritar: Saia dai, menina! Chega!

A primeira vez que fui para a cama com um homem, diante da minha dor, ele disse: "Precisa ir a um médico, está machucada, não é normal".
Em casa, tomei coragem e me olhei com um espelho. Desde então gosto de me tocar. 
Minha mãe me odiaria se me visse com um homem. Gosto de homens, deixo que me conduzam. Fecho os olhos e deixo que me amem.


No magazine

Fica encantada ao se ver no espelho com o vestido da loja.
Dança até cansar.
Com uma tesoura faz pequenos cortes nas roupas penduradas.
Ao bater a porta, sabia que não haveria retorno.


O jantar

Dormia quando ele chegou de madrugada. Da porta, disse: Anda, tenho fome. Sonada, levantou. Encheu a panela com água, colocou no fogão e voltou a cochilar enquanto fervia.
Ele a viu de bruços na mesa, pegou a lata de óleo e a despejou sobre sua cabeça.
- Sua vaca, levante!
Ela obedeceu em silêncio. Chorando baixinho entrou no chuveiro quente. Lembrou da mãe. Chorou, mais ainda. Levou tempo para tirar o óleo, o ódio e o medo.
Quando saiu, ele já havia comido. Estava à sua espera, pronto.
Acordou às quatro, ele ressonava de boca aberta. “Desgraçado”.
Antes das cinco estava pronta. Mochila segurando a porta da rua entreaberta. Faca na mão.
Ela saiu de óculos escuros - amanhecia.

*Este conto enviei para o concurso Off-FLIP- nada :( enfim, é assim, não é?








sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Miniconto: Eu?




-Você me exaspera, ele diz.
Ela olha impassível.
Diz: Eu?
Poderia parecer irônica, mas se percebe uma alteração na voz, agora trêmula.
- Me diga o que ‘acontece conosco’? Ele diz alterado.
Ela cai num riso histérico. O homem da mesa ao lado olha e sorri cúmplice.
Ele enrubesce. Olha para ela quase engasgando.
- Pare com esta cena ridícula. Vamos sair daqui.
Levanta-se e a segura pelo braço.
Ela para de rir, faz um gesto para se desvencilhar da mão firme dele.
Sai na frente, enquanto ele paga a conta no balcão.
Quando ele sai olha em todas as direções.
Ela sumiu.