sábado, 16 de abril de 2011

Na vitrine

Com o coração descompassado atravessou a rua correndo. O motorista do táxi freou, buzinou irritado. Era ele do outro lado da rua, sabia. Vestia uma camisa xadrez por dentro da calça e cinto de couro. “Está diferente, mas é ele”. Temia que desaparecesse. Estava diante de uma vitrine. Tocou levemente o seu braço. Ele virou-se, disse desconcertado:
- "Minha mulher está ai dentro, não posso falar com você". Virou-se e dirigiu-se à porta.
Parada na vitrine não o via. Não via nada.
Saiu, caminhar lento, esbarrando nas pessoas, lágrimas vertiam.
Na esquina, parada no meio fio, alguém lhe perguntou se precisava de ajuda.
- “Não obrigada”, acredita ter dito. Não queria mais nada.
Tempo interminável até se jogar no sofá aos prantos. Pensava no porquê do gesto, tantos meses se passaram...
Estava bonito e bem cuidado. Adivinha uma jovem ao seu lado que o obriga a se cuidar. Ela não saberia dizer: "Não beba mais por hoje". Bebiam juntos, se amavam embriagados, jurando amor eterno.
Viu na cristaleira a garrafa de whisky, intocada, deixada por ele.
Deixou-se estar no sofá até que o cão viesse, esfomeado, pedir para que lhe desse de comer.
Ela não precisaria comer estes dias, sabia.

2 comentários:

Papagaio Mudo disse...

um miniconto alla william Burroughs, eu achei.

a bç,

Gusta.

Diz disse...

Gustavo, nunca li William Burroughs... vou ver se acho por ai.
Tks pelo comentário, sempre é mto bom.
Seu blog não dá p comentar? não achei...:) é interessante lá, minimalista, gosto.
Abs, Elianne-Laura