Seis da tarde
O ônibus estava lotado. Um menino cedeu o lugar para ela, a mãe disse: “Ande, levante, não vê que a mulher precisa sentar?”. O marido permaneceu em pé, recostado na janela. Tentou abrir a parte de cima, não conseguiu. Olhou para ela e fez um gesto de cumplicidade- não havia nada a fazer.
Ela ajeitou as sacolas no meio das pernas. Sentia o cheio forte da mulher ao lado, misto de suor com gordura- deve ser cozinheira, pensou.
O ônibus parava a cada quadra no início da viagem. O motorista gritava: “Mais para trás ai, faz favor!” . Amontoavam-se. Ela se encolhia. Um homem com uma pasta encostou o corpo no ombro dela. Ela olhou para o marido, ele fez um gesto com a cabeça e ela se ofereceu para segurar a maleta. Pesava. “Deve ser representante de remédios, está arrumadinho”.
Uma hora mais tarde o ônibus esvaziava a cada ponto. O marido sentou-se ao seu lado. Ela, imediatamente, deitou a cabeça no ombro dele, sentiu seu cheiro e dormiu.
sexta-feira, 15 de julho de 2011
quinta-feira, 14 de julho de 2011
Os pássaros em 'V'- miniconto
Os pássaros em V
Faziam, há dias, o trajeto em silêncio. Ela sabia que dissera algo que o tocou profundamente e feriu. Caminha e tenta lembrar o que disse. Viveu num turbilhão. Sentia-se 'enlouquecida', louca de amor por ele. Como ele recusava este amor pleno? Ela se perguntava, e tentava, sem saber bem como, que ele lhe dissesse que também a amava. Ele calara. Nada o tira do silêncio, é preciso saber esperar.
Andavam pelas ruas de sempre. Ela o espera, desde que se conheceram, numa esquina. Ele vem de algumas quadras adiante.
O primeiro encontro foi ao acaso, ela tropeçou, derrubou livros e papéis, ele estava próximo, veio ajudá-la. Caminharam então na mesma direção.
- São cartas?
- Sim, estou compilando algumas de escritores famosos para um livro.
- Interessante...
O resto do trajeto foi em silêncio, quebrado por ela quando se aproximava de sua casa:
- Moro neste prédio. Você mora aqui perto?
- Sim.
Despediram-se com um aperto de mão.
Ela não dormiu naquela noite, acreditou que algo novo a tiraria do vazio.
À noite jogou o 'Tarot' que guardava há anos numa gaveta: "O enforcado", "O ermitão", "A estrela". Tirou mais uma vez: "A força".
Sabia que iria sofrer por este amor.
No dia seguinte saiu na mesma hora. À tardinha viu quando ele se aproximou buscando por ela na esquina. Cumprimentaram-se sem aperto de mão, nada. Caminharam em silêncio. Quando chegavam perto do seu prédio, ele disse:
- O que você faz aos sábados?
Nada que fizesse teria importância agora, estaria livre para ele, ela pensou.
Encontravam-se aos sábados na casa dela. Ele tinha mulher e dois filhos. Depois de três anos, ela mal sabe da vida dele, ele não conta, nem ela quer saber. Espera que um dia ele fique para dormir.
Agora caminha com ele ao lado. Conhece e ama aquele corpo mais do que o dela, adivinha cada traço. Deseja tocá-lo. Caminha roçando nele, que não se afasta, mas também não a toca, como costuma.
Há dois sábados ele não vem. Inventa desculpas, ela sabe. É difícil esperar. Esperar que ele volte a desejá-la.
Ele, de repente, olhou para o céu e disse:
- Olhe, veja os pássaros! Que lindos! Formam um V!
- São lindos. Há anos não via pássaros juntos assim...
Olharam-se e riram.
Ela sabia que neste sábado ele viria. Sabe que ao sentir o corpo dele, solto e pesado, sobre ela, uma lágrima brotará nos seus olhos. Ele não perceberá e é melhor assim. Estará sorrindo nos próximos dias.
quinta-feira, 7 de julho de 2011
A ponta/ sem revisão
O guarda- chuva
Do banheiro escutou a campainha tocar três vezes e as batidas insistentes na porta. Era ele, sabia. Passava das três horas quando desligou a TV.
O terno branco ainda reluzia. O rosto dele, também branco, a assustou. Não precisou perguntar, ele disse:
- Acabo de matar um homem que me seguia, um assaltante.
- Como?
- Com o guarda- chuva.
- Mas...
- Com a ponta do guarda- chuva.
Abraçou-a fortemente. Tremia.
Ela silenciou. Esperou que parasse de tremer e disse:
- Tome um banho morno, está suando frio.
O terno jogado na cadeira não tinha mancha de sangue. Nada.
Do banho ele foi direto para a cama.
Esta noite não a desejou como todas as noites.
Ela sentiu alivio.
Nunca mais falaram sobre aquela noite.
domingo, 3 de julho de 2011
Miniconto: Domingo no café da manhã
Domingo no café da manhã
- Olhe o que diz aqui sobre você.
- Sobre mim? Onde?
- Aqui no horóscopo da Linda.
- Ah!...Que Linda?
- Linda Goodman, aquela astróloga famosa, comprei ontem, você estava distraído entre seus livros.
Ele olhando por cima dos óculos:
- E você acha que eu sei quem é esta fulana?
- Ela é ótima, acerta tudo.
Ele já voltou ao jornal.
- Todo geminiano é um enigma. Escute.
- Hum? Enigma?
- É, você é um enigma.
Ele dá uma gargalhada.
- Eu sou o que sou, você não precisa me decifrar...
- E você acha que eu consigo conviver com um enigma? Dormir com um?
- Por mais que tente me decifrar, nunca me alcançará. Já devia saber disto.
Ele está lendo, a cara afundada no jornal. A mandíbula contraída.
- Imprevisível. Sabe esconder o que realmente sente. Viu?
- O que?
- Não diz o que sente.
- E você precisa que eu diga?
- Não tente se aprofundar muito nele.
Ele sem levantar os olhos do jornal:
- Fico admirado de você acreditar nestas baboseiras...afinal é uma mulher inteligente.
- Ah! Sabe o que mais? Diz que você pode sair para comprar jornal hoje e voltar daqui a três dias. Que eu nunca sei onde você está, porque está em vários lugares ao mesmo tempo. Viu?
- Viu o quê, madame? Por acaso já sai para comprar algo e não voltei?
- Voltou sim, mas quantas vezes viaja e não me dá notícias.
- Você sabe onde estou. E sabe muito bem, que eu detesto me sentir controlado.
- OK. Mas não tenho culpa, sou virginiana, controladora, mon cher.
- Escute isto: os nascidos em gêmeos precisam de dois amores e não exatamente de duas mulheres. Não é um enigma?
Ele levanta os olhos do jornal, mas não diz nada. Volta para a leitura.
- Não vou mais te perturbar, escute só mais esta: Ele terá sempre compulsão em agir de modo exatamente oposto aos seus verdadeiros desejos.
Ele se levanta, olha enviesado e vai em direção à porta.
- Vai sair?
- Vou, quem sabe volto daqui a três dias. Tchau.
sábado, 2 de julho de 2011
Miniconto: Em Paris II/ sem revisão
Em Paris II
No ônibus chorava olhando a janela- disfarçava. Por que se entristecera? Queria chegar e contar para ele o que viveu naqueles dias.
À sua frente um homem a fitou e esboçou um leve sorriso. Chorou mais ainda.
Não haveria ninguém à sua espera quando chegasse.
No ônibus chorava olhando a janela- disfarçava. Por que se entristecera? Queria chegar e contar para ele o que viveu naqueles dias.
À sua frente um homem a fitou e esboçou um leve sorriso. Chorou mais ainda.
Não haveria ninguém à sua espera quando chegasse.
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