terça-feira, 25 de janeiro de 2011
Miniconto: Ponto final
Sentiu a mão subindo pelas pernas, mãos suadas, ásperas. Fechou os olhos.
Perdeu a parada. Quando ele levantou, ofegante, viu a boca desdentada sorrindo sarcástica.
Permaneceu ali até o cobrador dizer:
- Ponto final, dona.
domingo, 2 de janeiro de 2011
Miniconto- Inês/ sem revisão
Foto André Paiva
Não sabe o porquê da inquietude. A mãe dizia: “Esta é lenta, não queria nem nascer. Anda Inês!”. Odeia o nome. “Pior se fosse Sebastiana”, retrucava a mãe. Nasceu no dia da mártir, um dia depois do dia do santo.
Quase menina, foi trabalhar no corte da cana. Lá conheceu Sebastião- ironia- gostou do nome. Ele era pouco mais velho e tinha olhos cor de amêndoas. Encabulou-se no primeiro encontro- ele a despiu com o olhar. Voltou para casa coberta de fuligem e atordoada. Mirou-se no espelho sobre a pia da cozinha. Tirou-o da parede, tentou ver o resto do corpo- “mais ossos que carne”, pensou.
Os irmãos brincavam no terreiro. No banho tocou o sexo. Apressada esfregou-se até um arrepio. Sabia que agora era mulher- os olhos dele o disseram.
...
Anoitece. Observa a duna- lembra da areia morna, a perna úmida de sêmen, o corpo de Sebastião sobre o dela. Tenta enxergar mais longe. Não, ele não virá. Melhor entrar e fazer a janta para os netos.
sábado, 25 de dezembro de 2010
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
Miniconto: Nada além de boa noite
Ele ligou dizendo que não virá jantar, terá uma reunião de trabalho.
- “Ok. Vai chegar a que horas?”.
- “Assim que terminar a reunião, lá por dez horas, suponho”.
Não arrumei a mesa, como sempre, comi na cozinha. Antes de nos encontrarmos, eu lanchava à noite. Ele gosta de jantar, de um vinho.
Dez e meia e ele não chega. Não usa celular- odeia. Detesta falar ao telefone. Começo a ficar aflita. A cidade é perigosa.
Onze horas e ele não chega. Onze e dez: ele liga e diz que estão num bar comendo algo. Fico aliviada.
Resolvo deitar. Ele chega alta madrugada. Está trôpego, encontro-o na sala tirando os sapatos. Precisou sentar para não cair. Não é sempre que faz isto. Penso que felizmente não está dirigindo. Prefiro não dizer nada além de boa noite. Volto para a cama.
Minutos depois ele se joga ao meu lado sem usar o banheiro. Fico de costas. Ele me puxa, me vira, sinto o hálito de álcool. Tenho sono, quero dormir. Ele me beija e sobe sobre mim. Há meses não fazíamos sexo. Mesmo com sono me abro receptiva. Seu corpo está mais pesado. Não consegue se apoiar no braço.
Digo: “Está me machucando”.
Ele parece não ouvir. A ternura que tenho se esvai. Empurro-o com força, pego o pênis em ereção e aperto, agito, num sobe e desce, para facilitar. Ele joga-se para trás com prazer. Procuro olhar o sexo penetrando em mim- me dá prazer. A raiva desaparece. Quando ele está pronto me avisa: “Vem comigo”. Mentalizo o sexo em mim e gozo. Ele solta o corpo pesado.
Minutos depois ronca ao meu lado. Eu me levanto e me lavo.
terça-feira, 23 de novembro de 2010
Às quatro e dez- corrigido(hora)
Olhou o relógio atrás do balcão, três e meia, ele não viria mais. As mesas vazias, a tarde morna. O garçom, recostado no portal, olhava para ela e para a rua. Pediu uma água mineral. "Sem gelo, por favor", disse. Marcava quatro e cinco, quando entrou uma mulher. Escolheu a mesa do canto oposto, pendurou a bolsa na cadeira, enquanto sentava jogou o cabelo para trás. Rescendia a perfume.
Às quatro e dez, entrou um homem. Ela levantou-se, beijaram-se na boca. As roupas discretas contrastavam com as coloridas dela. Ele sentou, aproximou a cadeira, abraçou-a. Sorriam e beijavam-se. Os dois estavam com os lábios vermelhos e lambuzados de batom.
Os olhos da mulher que esperava turvaram. Disfarçou, abriu a bolsa, pegou o telefone- sem créditos- leu: “Querida, ainda estou na correria, mais tarde, passo na sua casa.”. Olhou para o garçom. Fingiu mandar uma mensagem.
Não viu quando anoiteceu, nem quando o casal saiu. O restaurante estava cheio quando sentiu a perna adormecida ao levantar-se.
Seguiu à direita em direção ao mar.
Às quatro e dez, entrou um homem. Ela levantou-se, beijaram-se na boca. As roupas discretas contrastavam com as coloridas dela. Ele sentou, aproximou a cadeira, abraçou-a. Sorriam e beijavam-se. Os dois estavam com os lábios vermelhos e lambuzados de batom.
Os olhos da mulher que esperava turvaram. Disfarçou, abriu a bolsa, pegou o telefone- sem créditos- leu: “Querida, ainda estou na correria, mais tarde, passo na sua casa.”. Olhou para o garçom. Fingiu mandar uma mensagem.
Não viu quando anoiteceu, nem quando o casal saiu. O restaurante estava cheio quando sentiu a perna adormecida ao levantar-se.
Seguiu à direita em direção ao mar.
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